Fernando Pessa – Entrevista

Posted: 18 Janeiro, 2000 in Amares, Braga, Caldelas, Cinema, emigração, entrevista, Espectáculo, fotografia, Guerra, humor, Liberdade, Literatura, Opinião, Política, Portugal, Reportagem, Social

 

Manuel Araújo (c)

16 Fev. 2000

Fernando Pessa nasceu em 1902, em Aveiro. Começou por trabalhar em seguros e só mais tarde é que veio a ser jornalista. Actualmente, vive em Lisboa, passando parte do seu tempo com os amigos e a organizar outras tarefas diárias no seu escritório. Após algum tempo parado, depois de ter partido uma perna, Fernando Pessa afirma, dentro de um mês, estar pronto para fazer mais umas ‘brincadeiras’ para a RTP. Assim, para sabermos algo mais e como é o dia a dia deste grande senhor do jornalismo, fomos recebidos amavelmente em sua casa onde trocamos algumas impressões.

 

 

Já todos conhecem e sabem algo sobre o Fernando Pessa, no entanto, vamos começar pelo início. Onde nasceu?

— Eu nasci em Aveiro. Eu sou Cagaréu.

Cagaréu?

— Cagaréu é o habitante de Aveiro que nasceu na freguesia de Vera Cruz.

Qual a razão dos referidos habitantes serem chamados de cagaréus?

— Eu também não sabia. Um dia foi a Aveiro e pedi uma audiência ao Presidente da Câmara, no tempo em que trabalhava na Emissora Nacional. Quando cheguei ao pé do Presidente da Câmara, questionei-o: ‘Senhor Presidente desculpe o incómodo, mas, eu vinha aqui porque nasci na freguesia de Vera Cruz, em Aveiro, e gostava de saber a razão dos naturais da referida freguesia serem cagaréus?’.

Ele não sabia também, se calhar nem era de Aveiro.

Depois, quando saí da Câmara tinha uma velhota na rua e cheguei ao pé dela e disse: ‘Desculpe, a senhora é de Aveiro?’. Ela respondeu que sim e fiz-lhe a mesma questão: ‘Sabe, eu nasci aqui em Aveiro e dizem que sou Cagaréu, sabe a razão de tal?’. A velhota muito ofendida disse: ‘Ai, não diga esses palavrões’, e foi embora sem dar a explicação.

Mais adiante, entrei num jardim e encontrei dois velhotes sentados num banco, a conversarem um com o outro, e pensei: ‘estes é que me vão dizer’.

Fiz a mesma pergunta e um deles respondeu: ‘Então o senhor não sabe a história! Nos barcos que andam ao serviço da ria entrou de novo um rapaz. O patrão da embarcação, numa manhã que andavam a trabalhar, ia na proa do barco com a vara a movimentar o barco de um lado para o outro, e de repente o rapaz chegou ao pé dele e disse: ‘Oh patrão, estou com dores de barriga mas, aqui não tem retrete, que é que eu faço?’. E o patrão voltou para ele e disse: ‘Oh pá, caga a ré’.

E ‘caga a ré’ deu Cagaréu.

Ainda recorda, com 98 anos, os dias da sua juventude?

— Eu lembro-me muitas coisas que se passaram há ‘milhentos’ anos, porque eu só sou 2 anos mais novo que o século XX, mas não me lembro de muitas coisas que se passaram ontem de tarde.

Nasceu no ano de 1902?

— Sim. Ainda o século XX não falava. (risos)

Imagine: no ano 2 o século XX ainda não falava e o fim do século acaba com computadores.

A única coisa que nós procuramos, nos dias de hoje, no computador, é descobrir aquilo que ele não é capaz de fazer.

Qual é o segredo para chegar aos 98 anos em tão boa forma?

— Eu estou convencido que foi o facto de ter deixado de fumar, já lá vão uns 50 anos…

Eu fumei bastante durante a II Guerra Mundial. Mas, quando voltei para Portugal, em 1947, numa manhã, quando me levantei e comecei a tossir deitei sangue pela boca. Apanhei um grande ‘cagaço’, chamei o médico e fiquei na cama durante três dias. Passado esse tempo o sangue parou. Desde então, nunca mais fumei.

Eu dou graças a Deus ter deixado de fumar. Estou convencido se tivesse continuado a fumar, se calhar, já estava a incomodar as pessoas que estão lá no outro lado, para onde eu irei quando acabar a vida.

Actualmente, incomoda-o se alguém estiver a fumar ao seu lado?

— Agora, o que me incomoda são as meninas que fumam muito mais que os rapazes.

A emancipação das garotas, perante o olhar de todo o mundo, são duas coisas: uma delas é andarem no meio da rua penduradas num cigarro; a outra coisa é andarem penduradas num garoto da mesma idade a fazerem certas coisas, no meio da multidão que passa mesmo ao lado deles.

Como é que justifica esse ‘avanço’ por parte das mulheres jovens?

— No meu tempo não havia nada disto.

Dantes a gente só via garotas no dia de Quinta-feira Santa, quando ia para o Chiado, muito bem vestidinho, com uma gravata bonita, onde elas iam, com a mamã, com a avó e com a titia, fazer a visita a sete igrejas.

Sair sozinho com uma garota? Não. Nunca consegui. Consegui namorar algumas, onde elas estavam penduradas numa janela e eu cá em baixo a gaguejar, e mais nada.

Acha que se estão a perder certos valores na sociedade?

— Eu tenho a impressão que sim.

Aquilo que se fazia no princípio do século era demais. O que se faz agora é muitíssimo demais do que era antes.

Havia uma prisão maior, no tempo antigo, e agora as coisas puxaram para o lado inverso.

No meu tempo, a minha mãe ou o meu pai nunca me falaram em sexo e ai de mim se falasse em sexo. Levava logo uma estalada que fica com a cara ao lado durante a tarde inteira.

Ao longo da vida, eu próprio, é que aprendi o que era a história do tal ‘sexo’.

Como é que um jovem de Aveiro aparece em Lisboa interessado em ser jornalista?

— Eu nasci em Aveiro numa casa pegada ao Quartel Cavalaria 8, em que era médico meu pai.

Quando iam limpar os cavalos na cavalariça, eu era levado ao colo e colocado em cima do cavalo, enquanto este era limpo.

Daí surgiu o meu amor pelos cavalos. Eu saí de Aveiro com 3 anos e foi para Penela viver com a minha mãe, numa casa herdada. O meu pai tinha ido, como médico, para S. Tomé.

Depois, fiz a 4ª classe em Coimbra, liceu e por aí fora.

Quando estava em Coimbra, com a mania dos cavalos, eu via chegar a Diligência que vinha de Coimbra para Penela, e dizia: ‘quando for grande quero ser cocheiro de Diligência’. Mais tarde, pensei em ser Oficial de Cavalaria.

Só que a I Guerra Mundial acabou um mês antes daquilo que devia ter acabado.

 Um mês antes?

— Se a Guerra tem durado mais um mês eu tinha entrado para a escola e seria o Oficial mais jovem do Exército português – Oficial de Cavalaria.

Quando a Guerra terminou, a primeira coisa que o Governo português fez, como havia oficiais a mais, foi parar a entrada de civis para a Escola Militar, que nessa altura se chamava Escola de Guerra, e só deixaram entrar nessa escola os alunos que vinham do Colégio Militar de Lisboa.

Isso, levou-me a desistir de ir para Oficial de Exército e procurar outra vida.

Aos 18 anos, mais ou menos, eu arranjei um emprego numa companhia de seguros, em Lisboa. Antes tinha arranjado um emprego num banco mas, desisti porque achei que eu nunca mais iria ser um banqueiro.

Mais tarde, a companhia abriu novas instalações no Brasil e fui destacado para lá, onde dirigi a secção de seguro automóvel. Fiquei por lá 6 ou 7 anos.

Depois, voltei para Portugal. Só nessa altura, quando estava a procurar emprego, um amigo disse assim: ‘Eh pá, ontem ouvi na rádio que estão a pedir pessoal para a Emissora Nacional’.

Fui até lá e disse: ‘Eu queria concorrer no vosso concurso’.

Era um concurso puxado…

Dos cerca de 200 candidatos eu fiquei classificado em segundo lugar. Passados quinze dias comecei a anunciar discos nos estúdios da Emissora Nacional.

Um certo dia, o Director da Emissão chegou ao pé de mim e disse para eu fazer um reportagem no exterior. Fiquei admirado porque eu não sabia o que era isso de reportagem no exterior.

Colocaram o microfone no meu pescoço e mandaram-me descrever, durante duas horas, um raid aéreo de acrobacias, na Amadora, para homenagear a memória do Capitão Abreu.

E, durante duas horas, lá estive eu a relatar, blá, blá…

Como a coisa saiu bem, comecei a ser o repórter da Emissora Nacional.

Como é que aparece a BBC na sua vida?

— Um dia, o Director da Emissão chegou ao pé de mim e disse; “Está ali um senhor inglês que quer falar consigo”.

Quando fui falar com o homem, ele mostrou um cartão da BBC.

O homem disse que gostava do trabalho que eu estava a fazer, na Emissora Nacional, e convidou-me para trabalhar na BBC de Londres.

Pedi autorização ao meu Director e ele disse: ‘Oh Pessa, um lugar na BBC? Agarra com as duas mãos porque isso é a maneira de você se profissionalizar. Nós aqui somos todos amadores e andamos todos a fazer asneiras. Vá e quando você voltar tem sempre a porta aberta aqui na Emissora Nacional’.

Aí é que ele se enganou!

Quando voltou não teve a ‘porta aberta’?

— Não. Eu fui para a BBC de Londres em vez de ter ido para uma Estação da Alemanha.

Se eu tivesse ido para a Alemanha estava convencido que na volta eu tinha entrado de novo para a Emissora Nacional. Como fui para a Inglaterra, na volta, as portas da Emissora Nacional não se abriram para mim.

Depois de regressar da Inglaterra qual a razão que a Emissora não lhe ‘abriu a porta’ novamente?

— Eles nunca me deram a razão. Disseram que o quadro estava completo. Tinham, realmente, boas razões nessa altura…. (risos)

 Porquê?

— Porque, ‘cheira-me’, ainda hoje me ‘cheira’, que o Governo de então, aqui em Portugal, simpatizava mais com o Governo Alemão do que simpatiza com o Governo inglês.

Isto é uma coisa que muita gente ainda hoje diz.

Ficou no desemprego?

— Nesse ano de 1947, estive ainda a trabalhar em várias coisas, para me aguentar aqui.

Que género de ‘coisas’?

— Estive a fazer versões portuguesas de documentários de cinema, feitos no estrangeiro, visto que a nossa produção nacional era tímida.

Eu tinha um grande amigo que era o dono do cinema Roma e da maior parte dos cinemas do país e nas antigas colónias portuguesas em África, e que precisava de muitos documentários para fazer os programas de então.

Com quinze ‘paus’ a gente ia ao cinema, tinha um jornal, tinha um bom documentário, tinha um desenho animado e por vezes ainda tinha um segundo documentário.

E então, eu andei, durante dois anos, a fazer documentários para os cinemas.

Como é que depois o Fernando Pessa aparece na RTP?

— Quando começou a RTP, vieram-me buscar para eu ir abrir na Feira Popular, que era onde está agora a Gulbenkian, a apresentação dos colegas que depois iam fazer os programas da RTP.

Não me deixaram entrar para o quadro da RTP, talvez porque a rádio não me tinha admitido eles também não me queriam admitir.

Mas, consentiram que eu fosse colaborador da RTP. Só em 1976 é que eu consegui deixar de ser colaborador para entrar para o quadro.

Agora, reformado, ainda faço umas brincalhotices para a RTP, mas, quando a caixa dos pirolitos começar a falhar eu paro.

Antes de morar em Lisboa estudou em Coimbra, como anteriormente referiu. Nesse tempo era fácil entrar na Universidade?

 — Naquela altura fiz a matricula na Universidade, paguei e pronto. Não era preciso fazer nenhum exame como agora.

Mas, quando era feita a matricula era necessário saber, pelo menos, falar bem português.

Actualmente, como é o seu dia a dia?

— O meu dia a dia, desde os últimos 14 meses, é uma chatice. Parti a perna, faz agora 14 meses, fui operado por três vezes e só agora é que eu estou realmente a melhorar e já consigo andar. Embora ainda ande com as canadianas, não é pelo facto de eu gostar de andar muito com raparigas estrangeiras, mas é porque tenho medo de um desequilibranço. Uma queda em cima desta era uma coisa seriamente grave. Ando com elas só para prevenir, por enquanto. Mas, já consigo andar sem elas. Eu estou convencido que mais um ou dois meses estarei nas condições necessárias para continuar a fazer o meu; ‘E esta hem!?’.

Como explica a grande concorrência, por vezes desleal, que existe entre os jornalistas e os meios de Comunicação Social?

— É uma concorrência que eu não gosto muito. Por vezes, são inconvenientes uns com os outros.

Nós devemo-nos respeitar uns aos outros, por mais diversas que sejam as nossas ocupações.

Eu posso estar a trabalhar numa Estação, o meu amigo está a trabalhar noutra mas, não existe nenhuma razão para que eu não o respeite a si e você não me respeite a mim.

Agora, podemos censurar o trabalho que se faz. É isso, que eu, por vezes, costumo fazer

Quer dar um exemplo?

— Por que é que os nossos realizadores adoptaram, de uma maneira geral, em todas as Estações de TV, por tudo e por nada, colocarem uns indivíduos, alguns ganham dinheiro por isso, a fazer público, nos programas em que este se dispensa completamente.

Mas, para que é aquele público? É para dar palmas, muitas vezes fora de propósito, só para o realizador mudar de plano e não se dar pelo corte que se faz na montagem?

Mas, alguém emendou isso até agora? Não. Ninguém vai emendar. As palmas são uma coisa muito prática. Meia dúzia de indivíduos sentados ali a bater palmas. Eles adoram ir lá. O sonho de toda a gente, hoje em dia, aqui na nossa terra, é um dia aparecer no boneco da TV.

Isso acontece também nas reportagens do exterior?

— Quando eu faço reportagens ou tenho que entrevistar alguém na rua, eu encosto-me sempre na parede que é para não aparecer ninguém atrás de mim, meia dúzia de ‘galões’, a dizer adeus para a mãe.

Quais foram as grandes paixões da sua vida?

— Comecei com garotas, depois passei para cavalos, de cavalos para bicicletas e acima de tudo uma grande paixão pela vida.

Que conselho ou recomendação daria aos portugueses que vivem lá fora?

— Nunca esqueçam a nossa terra, por mais mal que possam dizer.

A grande parte daqueles que saem de Portugal quando chegam ao estrangeiro, muitos deles, fazem aquilo que na nossa terra sempre recusaram fazer, por acharem que não era trabalho que se desse a pessoas com as suas qualificações.

Nunca esqueçam a nossa terra. Voltem, poupem o mais que poderem e façam a sua casinha em Portugal, para depois albergarem os filhos e netos.

E esta, hein ???

 

 

(*) com A. Amaro

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Morreu Fernando Pessa

Hoje, pelas seis horas da manhã, 29 de Abril de 2002, morreu Fernando Pessa.

O mais velho jornalista do mundo morreu esta manhã, no Hospital Curry Cabral, duas semanas depois, de ter completado cem anos de idade .

Até sempre Fernando…

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