Manuel Alegre – Entrevista

Posted: 28 Março, 2000 in Portugal

Manuel Araújo – 28-3.2000

Prémio Pessoa 99 e Fernando Namora – Qual é o sentimento de receber estes dois prémios ?

Recebi vários prémios este ano. Recebi, primeiro, o prémio da Secção Portuguesa Associação Internacional dos Críticos Literários, o Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores, prémio Fernando Pessoa e o prémio Fernando Namora para o romance. O mais significativo de todos é, sem dúvida, o prémio Fernando Pessoa, que é hoje uma grande referência cultural no nosso país. Nunca escrevi a pensar nos prémios. A minha amiga Sofia, diz que pensar nos prémios faz mal à cabeça e eu estou de acordo com ela, nunca pensei e nunca escrevi a pensar nisso. Evidentemente, que é agradável receber prémios, são sobretudo uma responsabilidade acrescida quando se recebe um prémio com o significado como o do Fernando Pessoa. Mas, não é o prémio que faz ou desfaz uma obra, é, talvez, um momento de consagração, de reconhecimento. Contudo, o meu maior prémio, são os meus leitores, sobretudo quando os meus livros eram proibidos e se faziam cópias manuscritas ou dactilografadas porque não haviam máquinas de fotocópias e os livros circulavam manuscritos ou dactilografados, esse é que é o prémio principal.

A poesia de intervenção tem os dias contados?

Não sei muito bem o que é poesia de intervenção. Oiço muito falar nisso mas não sei bem porque se chama e porquê. Quem escreve, escreve para intervir. Depende das circunstâncias históricas, evidentemente, se vivemos numa ditadura ou numa tirania um poema pode ter um determinado significado. Ainda ontem, no discurso que fiz, falei num grande poeta russo que foi deportado e morreu a caminho da Sibéria. Quando foi deportado, disse á mulher que a poesia é o poder, a mulher julgou que tinha enlouquecido, só depois é que percebeu que ele morreu por causa de um poema contra o Stalin. Mas a verdade é que hoje as estátuas do Stalin são derrubadas e erguem-se estátuas a ele. Nesse sentido, um poema pode ter um grande significado imediato ou um grande significado histórico. Eu próprio, escrevi alguns poemas que foram transformados em hinos da resistência, mas, nenhuma poesia é de intervenção e toda ela é de intervenção.

Foi fácil fazer coabitar a política com a poesia?

Olhe, isso é uma pergunta que me fazem sempre. A poesia dificilmente coabita com algo que não seja ela, acho, que a poesia, é algo que está aquém e além da literatura. Costumo dizer, que é uma relação mágica com o mundo. É uma relação do mundo através da palavra poética, ou, a Liberdade Livre de que falava Ramboa. É uma coisa exclusiva e quase totalitária que dificilmente convive com outra coisa, simplesmente, também, não há separação da escrita e da vida. A minha geração foi um pouco invadida e ocupada pela história muito marcada. Pela circunstância histórica de um povo que viveu fora da história ou como aqueles poetas que se consideram inespaciais, intemporais como dizia com ironia João Cabral; portanto, foi a vida… foi a vida. Também, se não tivesse vivido o que vivi, provavelmente não teria escrito o que escrevi.

No livro Alma, que é de grande profundidade pelos valores cívicos, sociais e republicanos, fica uma pergunta em aberto, citamos:
„Mas a quem tenho eu de agarrar pelos pés e bater com a cabeça no chão para que de uma vez por todas me digam porque é que uns usavam sapatos e outros não?“
Já lhe responderam a esta pergunta?

(risos) Eu próprio respondi a essa pergunta. Procurei a resposta na base da injustiça. Essa pergunta é uma metáfora, mas realmente eu fazia essa pergunta quando era pequeno, porque eu lembro-me desse Portugal, do pouquechinho, da muita miséria, da muita pobreza. Eu andei numa escola em Águeda, pertencia a uma família privilegiada em relação à maior parte dois meus companheiros de escola que iam descalços, haviam muito poucos que usavam sapatos , alguns chancas, outros andavam descalços e eu fazia essa pergunta. Essa pergunta tem a ver com a desigualdade da origem, a única resposta é criar as condições para que haja igualdade de oportunidades, as pessoas são diferentes , não há igualdade no fim, mas tem que se criar cada vez mais condições de igualdade à partida. Eu por exemplo, se fosse filho do pai do Joaquim Pereira, que é um rapaz meu colega, que por acaso era o melhor aluno da minha classe, que era operário, tinha, se calhar, ficado como ele com a oficina e assobiava ou tocava guitarra ou tocava flauta, mas não escrevia aquilo que escrevo.

Uma pergunta do Luís Esteves:

Os grandes poemas do Manuel Alegre nasceram de momentos de grandes paixões?

(risos) A grande paixão é a vida e a vida é feita de múltiplas paixões. Não é apenas a paixão de um homem por uma mulher mas a paixão de um homem por muitas coisas; pelo Mar, pelo País onde se nasceu, pela Pátria, pela Liberdade e pela vida nas suas múltiplas facetas.

O idealismo político, neste mundo da globalização, tem futuro?

Não, este é um tempo a que chamaram a era do vazio, pós modernismo, o princípio de prazer que se sobrepõe o egoísmo, o narcisismo, o carreirísmo que se sobrepõe às convicções e aos ideais. Mas estas coisas são cíclicas e os ideais não morrem.

Que é ser político nos fins do século XX?

Ser político no século XX, XXI,XXII ou no século 1 é sempre a mesma coisa. É uma pessoa procurar lutar pelo bem comum, ter uma certa ideia da rés publica, da coisa pública, que é isso que neste momento está em crise, é o espírito do serviço de servir a coisa pública, de servir os outros, de procurar sobretudo o bem estar geral e o bem comum.

Que é ser socialista hoje?

(risos) Ser socialista hoje, é ter uma visão que não seja uma visão resignada nem conformista. É continuar a acreditar que é possível um projecto de transformação da sociedade, é não passar o Estado à clandestinidade, é não acreditar que o mercado entregue a si mesmo resolve todos os problemas, é conciliar a economia de mercado com a justiça social, é conciliar a economia de mercado com o papel do Estado, não apenas como regulador mas também como interventor instrumento de correcção das injustiças e das desigualdades. E é colocar, enfim, a realização da Justiça num sentido amplo acima dos negócios, é uma pessoa continuar a bater-se por uma ética dos valores e pelo primado da política como pelo primado da política sobre a Economia e o economicismo, aquilo que é hoje a ditadura dos mercados financeiros.

Uma data e uma personagem ?

São muitas, mas uma data é o 25 de Abril de 1974, sem qualquer dúvida nenhuma. Personagens são muitas, conheci grandes figuras deste século, por exemplo o Che Guevara… entre outros. Mas, como amigo, companheiro de combate e luta nas grandes batalhas da Liberdade do nosso país foi, sem dúvida nenhuma, o meu querido amigo Mário Soares

Como é que vê a integração da diáspora portuguesa no país real?

È difícil de responder… nós somos um país que se fez muito para fora. Muitos grandes portugueses, a começar pelo Camões, foram emigrantes. Portugal foi muito feito de fora para dentro e continua a ser um país de emigrantes. Penso que se deram hoje grandes passos, quer no ponto vista dos direitos dos emigrantes, quer do ponto de vista dos direitos que estão consagrados na Constituição, quer da maneira como o próprio Estado Português tem negociado com os países de acolhimento. Hoje, é muito diferente a situação dos emigrantes portugueses daquela que eu vi, por exemplo, no início dos anos 60 quando cheguei a Paris onde me inteirei de portugueses a viverem em condições infra-humanas nos “Bidons Villes”. Alguma coisa mudou, estamos, sobretudo, na Europa neste período de construção da União Europeia e os emigrantes portugueses são cidadãos da Europa.

Para quando a sua próxima visita à Suíça ?

Isso não sei dizer. Fui convidado recentemente mas não pude ir, espero ter um dia destes a possibilidade de o fazer. Quando estava no exílio, passava frequentemente por Genebra e por Lausana, onde tinha amigos, como; o António Barreto, Eurico de Figueiredo e o Medeiros Ferreira. Passava frequentemente por lá, quando ia a caminho de Argel como quando viajava para Paris também passava pela Suíça. Não só foi um local de acolhimento para os emigrantes de hoje, mas, sobretudo, para os exilados da altura, é preciso não esquecer disso. A Suíça, com todas as suas características, foi um dos poucos países da Europa que reconheceu aos exilados portugueses o estatuto de refugiados políticos.

Uma palavra, recomendação ou conselho aos nossos emigrantes ?

Em primeiro lugar uma palavra de solidariedade, porque eu também fui emigrante. Fui emigrante político mas também foi emigrante. Preservar a Língua, transmitir a Língua aos filhos porque a Língua é o nosso melhor bem e a Língua é a nossa própria identidade. Perder a Língua, é perder a alma e nós não devemos perder a nossa alma lusíada e isso é o principal de tudo. Preservar a Língua e transmiti-la aos filhos, aos netos, porque a nossa Língua, além de ser a de Camões, é uma das mais belas Línguas do Mundo como é também a terceira Língua da Europa Ocidental mais falada em todo o Mundo. Por isso, os portugueses devem ser os primeiros a terem a obrigação de a falar e de a preservar.

Diamantes, Angola, família Soares — quer comentar?

Isso tratou-se de uma calúnia infame. O Dr. Mário Soares foi um homem que sempre lutou pelos Direitos Humanos e nos Direitos Humanos não pode haver dois pesos e duas medidas. Não podemos defender os direitos na Jugoslávia e esquecê-los noutros países, mesmo em Angola. Fui militante anti-colonialista, desde a primeira hora estive preso em Angola, sempre fui solidário até com o MPLA, mas, isso não quer dizer que possa estar de acordo com as violações dos direitos Humanos e muito menos aqui não se trata de defender das calúnias contra o Mário Soares que foi presidente da Republica e membro do Conselho de Estado ou de João Soares que é presidente da Câmara Municipal de Lisboa. São calúnias que atingem a dignidade do Estado português e por isso mesmo, o nosso presidente da República, Dr. Jorge Sampaio, reagiu com muita firmeza, com muita clareza e muita dignidade porque trata-se não de uma questão pessoal, mas duma questão com o nosso próprio país e com o Estado português.

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Curriculum

Manuel Alegre de Melo Duarte
Nasceu em Águeda a 12 de Maio de 1936
Possui o 3º ano da Faculdade de Direito de Coimbra, é Escritor e desempenha actualmente o cargo de vice-presidente da Assembleia da República, é Membro do Secretariado Nacional e da Comissão Nacional do PS.
Exerceu os cargos de vice-presidente da Assembleia da República na VII Legislatura, foi Secretário de Estado da Comunicação Social, Secretário de Estado Adjunto do Primeiro Ministro, Presidente e vice-presidente da Comissão Parlamentar dos Negócios Estrangeiros, vice-presidente do Grupo Parlamentar do PS, Presidente da Delegação da Assembleia da República ao Conselho da Europa, vice-presidente da Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa, Deputado à Assembleia Constituinte, Deputado à Assembleia da República nas I, II,III,IV,V,VI e VII Legislaturas.
Foi condecorado com a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade, Comenda da Ordem de Isabel “A Católica”, Medalha de Mérito do Conselho da Europa, Grande Oficial de D´Higgins (Chile), Diploma de Membro Honorário do Conselho da Europa.
Títulos literários e científicos: Conferências em Escolas e Universidades Nacionais e Estrangeiras; A sua obra tem sido objecto de estudos e teses em universidades nacionais e estrangeiras: Universidade Nova (Lisboa), Faculdade de Letras (Coimbra), Universidade Livre de Bruxelas, Universidade Livre. de Gaulle, Lille, Universidade de Nice, Bologna, Instituto Orientale (Nápoles).

Obras Publicadas: Praça da Canção; O Canto e as Armas; Lusiade Exilé; Um Barco para Ítaca; Letras; Coisa Amar; Nova do Achamento; Atlântico; Babilónia; Chegar Aqui; Aicha Conticha; Jornada de África (Romance); O Homem do País Azul (Contos); Obra Completa (Poesia); Rua de Baixo; Com que Pena ( Vinte Poemas para Camões); Coimbra nunca Vista; Sonetos do Obscuro Quê; Trinta Anos de Poesia; Alma (Romance).

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