Entrevista – Dr. Jorge Sampaio – Presidente da República

Posted: 29 Maio, 2001 in Portugal

TERÇA-FEIRA, MAIO 29, 2001

Manuel Araújo 

– O Sr. Presidente, vai visitar a Suíça nos próximos dias 4 e 5 de Junho, mais concretamente Genéve. Qual é a importância que atribui a esta sua visita? 

Dr. Jorge Sampaio:

A minha deslocação a Genebra deve-se, em primeiro lugar, ao convite da OIT, Organização Internacional do Trabalho, para, como convidado de Honra, discursar na Conferência Anual da organização. É um convite que muito me honra e que atribuo à importância que Portugal e os portugueses vão conquistando e já hoje lhes é reconhecida em todo o mundo. Não podia deixar de aproveitar ainda a minha deslocação a Genebra para me encontrar com a comunidade portuguesa na região, e também de outros cantões da Suíça pois sei que a habitual generosidade e dedicação dos nossos emigrantes justificará a sua deslocação um pouco de todo o lado. Como os nossos emigrantes sabem, sempre que posso gosto de me encontrar com eles. Antes de mais para os ouvir e sentir como vivem, longe da sua terra, mas sempre muito ligados ao que se passa em Portugal. Mas igualmente porque é justo reconhecer que os emigrantes portugueses contribuem, também eles, e muito, para a imagem positiva que Portugal hoje consolidou no mundo e transmitir-lhes o apreço do Estado português. Finalmente, terei ainda ocasião e interesse em falar com a Alta Comissária das Nações Unidas para os Refugiados, Sr.ª Ogata, sobre a questão dos refugiados timorenses em Timor Ocidental.

– Globalização. Não estará o mundo, incluindo Portugal, a ficar demasiado “globalizado”? Esta tendência não poderá criar graves problemas sociais, como a desertificação? 

Dr. Jorge Sampaio:

Como vou afirmar no meu discurso junto da OIT, é verdade que a globalização dos mercados financeiros, como o aumento do poder das empresas transnacionais e a revolução das tecnologias da informação e da comunicação, veio agravar a situação de desigualdade em que vivem regiões imensas do mundo e enormes grupos de pessoas. É indesmentível que estamos perante novos riscos e sérias ameaças que põem em causa regras, sistemas e organizações que tiveram um papel decisivo na promoção e na defesa dos valores da dignidade humana e da solidariedade social. Mas recuso a ideia de que os imperativos da competitividade empresarial nos obrigariam a escolher entre a eficiência económica e a justiça social. Não estamos condenados a um futuro em que os maiores vençam sempre os mais pequenos e em que a ética social seja sacrificada à competitividade empresarial. A meu ver, podemos e devemos fazer muito para que a economia aumente e melhore as condições de que a humanidade dispõe para satisfazer as suas necessidades e os seus anseios.

– Estamos prestes a comemorar mais um dez de Junho. Quais são os valores que o Sr. Presidente da República pretende e deseja transmitir aos jovens, num dia tão especial para todos os portugueses? 

Dr. Jorge Sampaio:

A mensagem que penso dever transmitir aos portugueses, em geral, e aos jovens, em particular, é de confiança no futuro e de responsabilidade no presente. Herdeiros de uma cultura e de uma história multisseculares, devemos encontrar aí o impulso para nos modernizarmos como sociedade, preparando as gerações mais jovens para o novo mundo, que é mais exigente, complexo e competitivo. Estamos conscientes de que temos dificuldades, de que há desafios importantes a vencer. Sabemos que temos de investir a fundo na educação, na cultura e na ciência, pois o futuro dos países depende da qualidade e preparação dos seus cidadãos. Ao respondermos a este desafio, sabemos que estamos a preparar um futuro melhor para todos os portugueses. É essa a responsabilidade que devemos assumir neste Dia de Portugal.

– Uma mensagem do Sr. Presidente à comunidade portuguesa na Suíça …

Dr. Jorge Sampaio:

Para além do que já afirmei na resposta anterior, não quero deixar de assinalar o quanto anseio pelo encontro com a comunidade portuguesa que vou realizar em Genebra, e onde espero ouvir e sentir os anseios dos portugueses. Sei que, como é habitual nas gentes portuguesas, têm honrado e dignificado o país, como as autoridades suíças me têm referido, o que devo agradecer em nome do Estado. Mas sei também que vivem um momento de esperança na medida em que os acordos da Confederação Helvética com a União Europeia vão, seguramente, melhorar as suas condições de vida e aumentar as expectativas de integração. Estou solidário com todos nessa esperança. Finalmente, e como sempre, os votos de felicidade para as famílias portuguesas para que continuem a ter o maior sucesso nas vossas vidas.

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