Manuel Araújo – entrevista

Posted: 21 Março, 2002 in A conversar

Por Adélio Amaro

1 – Vivendo alguns anos na Suíça e agora a residir em Portugal, como surgiu a ideia de fundar um jornal dedicado aos portugueses residentes no país referido?

Foram quase 20 anos de permanência no país helvético, onde, profissionalmente passei por sectores da Hotelaria, Indústria, Saúde e pela Comunicação Social. Neste último, fiz parte da equipa redactorial de um jornal comunitário, que iniciava na altura, a sua actividade naquele país.
Foi nessas andanças, que o meu amigo Adelino Sá (hoje director da Gazeta Lusófona) me conheceu, juntou-se também á nossa equipa, mas, com o passar do tempo, não nos sentíamos realizados, a nossa acção era limitada, a rédea era curta e além disso, tínhamos também, uma concepção diferente do que deveria oferecer um verdadeiro jornal para o emigrante. Sabíamos exactamente o que queríamos, por isso, depois de alguns entraves e atropelos a algumas das nossas iniciativas, rompemos com o referido jornal e no dia 25 de Abril de 1998, nasceu o embrião do que é hoje o Gazeta Lusófona.

2 – Os portugueses e descendentes dos mesmos têm aderido bem ao projecto ‘Gazeta Lusófona’?

O emigrante português, salvo raras excepções, não tem hábito de leitura. Os jornais que por vezes lêem, são os desportivos (eles) e (elas) a “Maria” e nós tinha-mos consciência, que ia-mos encontrar uma barreira muito alta para ultrapassar, não podíamos chegar e …”toma lá Cultura !”
Foi por isso, que aceitamos o desafio com determinação e que hoje, já se sentem os seus frutos, são cada vez mais pessoas de todos os sectores da Sociedade que nos acarinham, incentivam e lêem, isso é gratificante e dá-nos força para ir mais além.
A “Cultura”, neste caso, tem sido servida como um medicamento, bem doseada, pois se a dose for excessiva, o paciente, sente-se mal e pode até morrer… quero dizer, deixar de ler.

3 – Como poderemos classificar o ‘Gazeta Lusófona’?

A classificação oficial do Gazeta Lusófona, de acordo com o deliberado pela AACS, é como sendo – “uma publicação periódica, portuguesa, de informação geral e destinada ás comunidades portuguesas” – e eu acrescento, “abrangente e de teor cultural “, pois, desde o número zero, não abdicamos de secções culturais fixas, tais como Literatura, Poesia (consagrados e inéditos), História, Culinária, Esoterismo, Humor etc.
Tem sido com muito orgulho, que temos contribuído para o aparecimento de novos valores na comunidade, tanto na área das artes, das letras ou outras.

4 – Além dos portugueses residentes na Suíça tem sentido eco dos residentes em Portugal?

O Gazeta, é em Portugal, praticamente desconhecido, porque não fazemos promoção, mesmo assim, pode ainda ser encontrado em alguns pontos de venda, e em muitas Instituições oficiais e é lido com agrado.
Existem muitos ex-emigrantes que regressaram e continuam a ser fieis ao nosso projecto, querem continuar a ser informados do que se passa lá, são eles os nossos melhores promotores, fazendo cada vez mais assinaturas que oferecem a familiares e amigos.

5 – As entidades portuguesas, em Portugal e na Suíça, têm colaborado com o Jornal?

O único apoio que tivemos desde a nossa criação, foi apenas o Porte Pago, que foi sacado a ferros, deu a impressão que alguém punha areia na engrenagem… Excluindo o Porte Pago, tanto cá, como lá… palavras, palavras, palavras, só isso.

6 – Quais são os temas principais que um leitor pode ler ao folhear o ‘Gazeta Lusófona’?

Como já referi anteriormente, não abdicamos das secções fixas da Literatura, Poesia, da História, da Culinária a cargo do Chefe Silva, meu conterrâneo e amigo, o Esoterismo, o Humor, as informações e regulamentações sobre o trabalho, Leis, os Consultório Social e Jurídico, as informações e reportagens de tudo que se passa no vasto Movimento Associativo (existem na Suíça, cerca de 400 associações de portugueses).
Quem quer que seja, mesmo muito exigente ou crítico, encontrará sempre algo, que lhe agrade, porque existe um leque muito alargado de opções de leitura.

7 – Acha que um jornal português na Suíça, como o ‘Gazeta Lusófona’, poderá ser quinzenário ou semanário?

Sem dúvida, mas a curto prazo, isso, está fora de questão.
Como sabes, estamos limitados em meios, continuamos a evoluir favoravelmente e vamos continuar nos moldes actuais, com passos curtos, mas seguros.

8 – Sente que este Jornal tem contribuído para uma maior ligação entre os portugueses na Suíça e os acontecimentos em Portugal?

Um exemplo mais que positivo, que conheces bem, é a tua página com as notícias da região de Leiria, que mensalmente nos presenteias. É muitíssimo apreciada, pelas gentes emigradas da região de Leiria. É nossa intenção, alargar a experiência a outras zonas de Portugal, pois, é já uma exigência dos portugueses de outras regiões…

9 – Ao elaborarem o Gazeta quais têm sido as maiores preocupações e dificuldades que têm encontrado?

No início, quando embarcamos nesta aventura, passamos um mau bocado, éramos carenciados de tudo, valeram-nos as nossas contas bancárias privadas, para suportar todos os encargos necessários para a saída do jornal. Fizemos das tripas coração, mas saiu sempre religiosamente na primeira semana de cada mês, nunca falhamos… Recordo, que o Porte Pago, apenas nos foi atribuído 14 meses depois do nosso início de actividade e cada jornal, para ser enviado para a Suíça, custava 200 esc. cada, era muito dinheiro… hoje, estamos na linha d´água…
Gostaríamos de renovar equipamentos e mobiliário, de ter mais um jornalista a tempo inteiro e de ter capacidade para remunerar os nossos colaboradores… Estamos presentemente, a elaborar um projecto de candidatura aos incentivos de Modernização Tecnológica, vamos ver o que dá…

10 – Sentem necessidade de aumentar a vossa área de intervenção para outros países?

A curto prazo, está fora de questão, mas não está excluída totalmente essa possibilidade.

11 – Além dos acontecimentos dos portugueses na Suíça tem havido uma preocupação da vossa parte para os assuntos que se destacam em Portugal?

A prioridade da nossa informação, vai para os acontecimentos na Suíça, e como já á pouco referi, dar também conhecimento das pequenas notícias, das várias regiões de Portugal. Da grande informação de Portugal, tem já o emigrante conhecimento, através da RTPi ou da SIC internacional.

12 – A área cultural aparece sempre nas folhas do Gazeta. Qual o vosso objectivo ao apostarem muito na cultura, seja ela histórica ou actual?

Como disse, foram inúmeros, os anos de fome cultural, passados na Suíça, por isso, vamos continuar com o nosso projecto, tentando recordar aos mais velhos e ensinar os mais novos, com textos curtos e incisivos, quem foi Camões, Pessoa, Garrett, Namora, o 25 de Abril etc. e que Portugal existe.
Em suma, reavivar e manter o elo da nossa nacionalidade, através da Língua de Camões.

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