Entrevista — Orlando Dias Agudo

Posted: 8 Novembro, 2005 in Ambiente, Animais, Arte, Cinema, Culinária, Desporto, Droga, e-Commerce, entrevista, fotografia, Free, humor, Internet, Liberdade, Literatura, Música, Opinião, Política, Portugal, Social

Orlando Dias Agudo

Nasceu em Mouriscas em 1938, é abrantino, estudou nos Liceus D. João de Castro e Gil Vicente, tem 2 filhos. É um notável jornalista, que fez carreira na Imprensa, Rádio e Televisão. Em serviço, viajou pelo mundo inteiro, recebeu vários prémios e Troféus.

O Orlando, é um amigo que está connosco (1) mensalmente, com a sua rubrica “Nós por cá” e nesta entrevista, fala-nos de si e lança um desafio a todos os leitores…

Manuel Araújo

Como é que tudo começou e porquê jornalista ?

Tudo começou nos tempos do Liceu: na disciplina de português, o que mais gostava era de fazer redacções…e eram elas que me davam a nota alta que me permitia alcançar uma média aceitável. Um dia, o meu professor de Educação Física, sabedor dessa minha apetência para a escrita, perguntou-me se eu queria escrever para um jornal desportivo chamado Record. Respondi que sim. Então, estabeleceu contacto com o Director (na altura o professor Fernando Ferreira) e ficou decidido que iria fazer a cobertura de toda a actividade desportiva da Mocidade Portuguesa. Isto, para tirar um fardo das costas de um outro jornalista (Guita Júnior) que já tinha muitas modalidades à sua responsabilidade. Pouco tempo depois, o editor (Monteiro Poças) começou a marcar-me outros serviços, que eu cumpria a rigor só para ver o meu nome impresso no corpo do jornal.
Foi este o “pontapé de saída” para uma profissão cheia de encantos, da qual não me arrependo de ter seguido, em prejuízo de um outro qualquer curso superior que certamente cumpriria com interesse menor. Os meus primeiros passos no jornalismo foi pois nos jornais.

Existe ainda muito público da nossa idade, que o recorda da Rádio… e depois ?

Depois, continuando a escrever para o Record, veio a Rádio: Havia no Rádio Clube Português programas de produtores independentes e um deles (Gilberto Cotta) convidou-me para ser o assistente de produção do Talismã. Aceitei, até porque, entretanto, tinha aprendido muita coisa de Rádio numa escola que deu muitos e bons profissionais. Era a Rádio Universidade. No Talismã permaneci vários anos até que o próprio Rádio Clube Português me proporcionou entrar para os seus quadros também como assistente de produção. Foram muitos e bons anos nessa função e naqueles estúdios. Inclusive na madrugada do 25 de Abril de 1974, quando o Movimento das Forças Armadas abriram os armários das músicas proibidas e nos deixaram passar o que só se ouvia offline.

Como ingressou na Televisão, que é sem dúvida daí, que a maioria do público o conhece, quer contar ?

Vivida a experiência dos jornais e da Rádio, faltava conhecer o mundo fabuloso da Televisão. E um dia, o saudoso Adriano Cerqueira convidou-me para a sua equipa da RTP, mas para isso teria de abandonar a Rádio. Aceitei sem hesitar. E durante mais alguns anos lá estive, tendo feito de tudo um pouco: desde repórter a editor, passando por apresentador de quase todos os programas desportivos da época. Muitas histórias poderia contar dessa aventura televisiva, mas isso ficará para outra altura.

E agora… Está aposentado, parou ou tem projectos?

Agora, recordo o passado e vou escrevendo…para mim. Histórias imagináveis com personagens que invento e que vão sendo guardadas na gaveta das minhas memórias Prometo não escrever um livro. O que vou guardando é só para mim mas estou disposto a desafiar quem quer que seja para, em conjunto, escrevermos uma história. Porque é bom, muito bom mesmo, sentirmo-nos “donos” dos destinos dos personagens que vamos criando. Será que algum leitor quer jogar comigo esse jogo?

Quer explicar melhor, como devem fazer para participar e para onde devem ser enviados os textos?

Aqui a seguir vai o inicio de uma história. Se quiser dar-lhe continuidade, faça-o e mande o resultado para a minha caixa de correio electrónico. Prometo continuar essa história.

Tome nota do meu endereço: ordapt@yahoo.es
(Não estranhe o “es”. É assim mesmo…)

E quem não tiver email?

Aqui, no final do conto poderá escrever no local reservado aos comentários.

(1) Lusitano de Zurique

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“A 100 à hora”Capítulo 1

Não ia com pressa…
Rodava à velocidade máxima permitida naquela auto-estrada, não obstante o carro como o piso convidarem a carregar no acelerador…
Não era ainda noite, a viagem iria demorar ainda umas horas, as suficientes para imaginar como seria aquele fim de semana, longe do escritório, dos casos ainda por resolver, das estratégias a aplicar em cada um dos julgamentos que já tinham data marcada.
O sucesso que tivera nos primeiros julgamentos, transformaram-me num advogado muito procurado, fazendo engrossar talvez depressa demais, a minha carteira de clientes. Agora, era tempo de parar umas horas, gozar os prazeres de um fim-de-semana prolongado, sem agenda, sem compromissos, sem horas marcadas para o que quer que fosse.
A auto-estrada não estava muito concorrida; podia até dizer-se que ela era toda minha, já à minha frente não rolava mais nenhum carro e, vindo de trás, nenhum outro ameaçava ultrapassar-me.
O corredor escuro de betão era todo meu…
Tanto mais que, não tendo necessidade de rasgar estradas citadinas, podia olhar despreocupado para a paisagem que não via há tanto tempo: campos de cultivo verdejantes ondulando ao sabor do vento de fim de tarde, aqui e ali uma ave que saia do seu refúgio de calor e voava para outra sombra que seria a sua cama da noite que não tardaria a chegar….
Foi então que vi, parado na berma da auto-estrada, um outro carro; e, a seu lado, uma mulher fazendo sinais, pedindo certamente ajuda. Parei uns metros mais à frente e pelo espelho retrovisor, apercebi-me que se tratava de mulher mais ou menos da minha idade, vistosa, bem vestida, cabelos compridos que esvoaçaram enquanto corria para junto do meu carro.
-Desculpe….mas talvez me possa ajudar….
– O carro pregou-lhe a partida…
– Não sei o que se passa….vinha a andar e, de repente, ouvi um barulho estranho e parou…e começou a deitar fumo do motor….
-Vinha depressa demais, certamente….
-Não posso dizer que vinha devagar….mas já tenho andado mais depressa….
-Vamos lá ver se consigo resolver o seu problema…. Sai do carro e dirigi-me ao bólide que se recusava a andar. Era um potente carro, topo de gama, não muito usado, talvez o ultimo modelo da marca que eu, em jovem, sonhava ter um dia. Pedi-lhe para se sentar e para abrir o capot. Fê-lo de uma forma dir-se-ia que estudada. Quando se sentou, a saia travada que usava deixou ver um bom naco de perna, não sendo necessário ser especialista no assunto para logo se adivinhar o desenho perfeito do seu perfil. Quando abriu o capot, ofereceu-me um sorriso das mil e umas noites, através de uma boca feita para beijar, lábios carnudos muito bem pintados, enquadrados nuns olhos verde-esmeraldas que chegavam para pensar noutros convites….
Depressa cheguei à conclusão que sem um arranjo muito profundo, aquele carro não sairia dali pelos seus próprios meios. E disse-lhe sem qualquer espécie de reservas:
– O seu carro adoeceu gravemente….
– Acha que não consigo sair daqui?
– No seu carro certamente que não….
– E agora, que posso fazer?
-Acho que o melhor é fecha-lo bem…e vir comigo até à cidade mais próxima. Lá encontraremos alguém que o venha buscar e que lhe substitua a peça que partiu…Quer aceitar a oferta?
– Fico muito agradecida, mas a cidade mais próxima ainda fica longe….
-É para onde vou.
-Nesse caso, se quiser ter essa amabilidade….

Foi ao porta-bagagem, tirou a pequena mala que transportava e sentou-se a meu lado. Confirmei, nesse entre tempo, que era uma mulher dos pés à cabeça. Com as curvas nos locais próprios, alta, loira, bonita até. Instintivamente olhei para a sua mão esquerda: lá estava uma aliança de casada, não muito velha, sinal de que não morava ali há muito tempo….
Durante os primeiros quilómetros permanecemos em silêncio. Depois, foi ela quem tomou a iniciativa….
-Espero não estragar a sua viagem….
-Não estraga,,,, digamos que até quebra a monotonia em que vinha….
– Faço esta viagem todos os fins-de-semana, e esta é a primeira vez que me acontece ficar parada no meio do caminho…
– Às vezes acontece…vai passar o fim-de-semana com seu marido?
-Que o leva a pensar isso?
-Sei lá…apenas dedução….
-Não, não vou ter com meu marido….Esse foi para fora do país, um congresso qualquer….eu venho para passar uns dias sozinha, tranquila, sem nada de concreto para fazer…sem horários, sem compromissos, apenas e só descomprimir….
-Exactamente como eu….só que não tenho mulher, portanto não tenho que pensar o que ela estará a fazer em qualquer local….
– Solteiro?
– Sim…ou antevissem querer, casado com a minha profissão….
-Posso saber qual?
-Advogados você?
– Professora universitária, porém sem exercer…
– Por opção?
-Pode-se dizer que sim….

Aos poucos fomos fazendo o retrato de cada um de nós. Fiquei a saber que o marido era um investigador que passava mais tempo no estrangeiro do que em casa e que ela começava a sofrer as consequências de um casamento pouco assistido se valia a pena dar assistência àquele casamento, pensava eu….
Ao fim de duas horas, mais minuto menos minuto, chegámos finalmente à cidade onde eu ia ficar naquele fim-de-semana. Já era noite, não encontrámos nenhuma oficina aberta, pelo que só no dia seguinte poderíamos tentar resolver o problema do seu carro.
-Suponho que tem onde ficar…- quis saber.
-Tenho casa aqui. Este é o meu refúgio quando faço pausa de mulher casada…E você, onde vai ficar?
-Tenho reserva no hotel…Não venho muitas vezes, por isso não posso ter casa própria…
– Se meu marido cá estivesse, convidava-o a ficar em nossa casa, mas assim….
– Agradeço na mesma….mas vou para o meu hotel. Mas primeiro deixo-a em casa para amanhã podermos tratar da oficina….
-Fico-lhe muito grata….

Deixei-a na casa que indicou ser a sua: uma pequena casa de praia, com piscina privativa e, adivinhava-se, mobilada com gosto.Combinámos tudo para o dia seguinte: quando acordasse telefonava-me para o hotel e iria levá-la à tal oficina.
Foi só à despedida que ela me perguntou:
-O seu nome?
-Mário….e o seu?
– Sofia

Depois de arrancar ainda vi, pelo espelho retrovisor, o seu aceno de adeus….


Capítulo 2

Continuado por: Maria LemosChegado ao hotel, fiz o chek-in, dirigi-me para o quarto de onde se vislumbrava num canto, uma televisão. Á sua frente estava uma mesa rectangular com uma bomboneira repleta de bombons e do outro lado da mesa um pequeno arranjo floral. Dei mais dois passos vi a cama enorme, ao lado desta viam –se as janelas da varanda, corri a cortina, fui até à varanda e sentei-me numa das cadeiras que lá se encontravam e apreciei o espectáculo do pôr do Sol.

Quando o Sol finalmente beijou carinhosamente o mar, insurgiu repentinamente a lembrança dos seu rosto, de como seria poder tocar na sua pele, nos seus lábios, de quanto seria maravilhoso poder estar com ela mais tempo. Cada raio que espelhava no oceano, me levava á lembrança dos seus cabelos, do seu sorriso, do seu olhar.

No final do jantar, fui caminhar até á praia, pois não conseguia simplesmente estar ali. Chegado ao areal, descalcei os sapatos, tirei as meias, dei umas quatro dobras nas calças, e caminhei sem direcção, ouvindo apenas o ruído do rebentar das ondas, que de quando em vez, molhavam os meus pés. Apenas se viam muito distante umas luzitas, que imaginei fossem de algum navio de carga e o brilhar da lua a reflectir na água, e pensava na partida que hoje o destino me tinha feito. Eu que não acreditava no amor à primeira vista, que nunca parava no meio de uma estrada para auxiliar quem quer que fosse, questionava-me quase constantemente, porque parei, porque dei boleia, porque não paro de pensar nela, porquê e mais porquês. Até que, vi uma mulher de cabelo loiro e preso, vestia fato de treino de cor clara, sentada na areia. No entanto, parecia estar a viajar para muito longe daquela praia e à medida de me ia aproximando, vi o mesmo rosto que teimosamente não saia da minha memória. Quando me aproximei o suficiente para ter a certeza que era ela , os meus passos abrandaram, até ao momento de ficar imóvel. Não queria acreditar, estaria louco, de tanto a imaginar já a estaria a ver ali. Até que ouvi uma voz muito delicada, que me chamou: -“ Mário, Mário!” Ainda hesitante, dei por mim a caminhar na sua direcção, quando finalmente acabei de dar os dez passos mais longos e demorados da minha vida, Sofia, estendeu a mão e convidou-me a sentar um pouco ali, tudo parecia perfeito, o local do encontro, o luar, as conversas, exceptuando o facto de estar com uma quantas dobras nas calças e sapatos nas mãos.

Reparei que estávamos a ficar com um pouco de frio e convidei a Sofia tomar um chá quentinho no hotel onde estava hospedado, ao qual ela assentiu, fomos a caminhar pela praia, quando de uma forma muito espontânea e natural ela meteu o braço no meu e continuamos a conversar, sobre as coincidências de nos termos conhecido, das motivações que me levaram a passar ali aquele fim-de-semana, enfim falamos dos nossos tempos de estudantes e de outros assuntos que não nos comprometessem de mais.

Chegámos ao hotel, eu agora calçado e as calças devidamente vestidas, dirigimo-nos até ao bar, perguntei à Sofia o que ela desejava ao que me respondeu: – “Um chá de camomila, preciso de acalmar, pois hoje tenho vivido mais emoções que nos últimos anos da minha vida.”, dito isto, brindou-me com um sorriso ainda mais belo que aquele que esboçou quando a vi pela primeira vez. Olhou para o relógio, mais que uma vez, senti que algo a perturbava, e perguntei-lhe: “ Sofia, estou a aborrecer-te?!” ao que ela respondeu prontamente: “Não, não é nada disso, é que já há anos, muuuuitos anos, que não estou assim, com outra pessoa além do meu marido… e também já é um pouco tarde, mas ainda tenho que lhe pedir uma coisa….” Quando ela proferiu estas palavras, senti um sopro gelado a percorrer-me a coluna e paralisei e ela continuou “é se me podes acompanhar até casa, não é muito longe, mas já são 23:45h e tenho um pouco de medo de andar sozinha pelas ruas a estas horas.” , ao que respondi de imediato que sim, no entanto não deixei de me questionar o porquê daquele pedido, visto que nesta cidade não existe (pelo que me lembre) situações de qualquer espécie de criminalidade.

Acabamos o chá e levei-a até casa, não demoramos mais que cinco minutos de percurso, ao chegarmos ao portão…

Continua…


Capítulo 3


Continuado por: Orlando Dias Agudo Quando parei o carro defronte o portão, o telemóvel de Sofia tocou. Ela pareceu surpreendida, mas antes de sair do carro, prontificou-se a atender. Ouviu mais do que falou. Da sua boca saíram apenas monossílabos, dando a sensação de que aceitava tudo o que lhe diziam. Foi um telefonema curto, que terminou com “um beijo” meio envergonhado. Quando desligou não me contive e perguntei:
-Algo de inesperado?
– Não, nem por isso…
– Pareceu-me teres ficado surpreendida…
( Arrisquei aqui um tratamento mais intimo, só para experimentar a reacção de Sofia )
– Não…mas gostei desse tratamento por “tu”…podemos continuar…e se queres saber o conteúdo do telefonema, talvez seja melhor entrarmos…
Era uma forma indirecta mas eficaz de me convidar a entrar. Acedi. E quando entrámos, ela convidou-me a sentar num largo e confortável sofá, enquanto ela iria trocar de vestimenta…que de fato de treino não é próprio de quem recebe alguém em casa, argumentou.

Quando fiquei sozinho, passeei os olhos pelas vastas estantes que emolduravam as paredes. Livros de ciência e também de literatura, obras de autores portugueses e também estrangeiros. Duas enormes telas completavam a decoração da sala e embora eu não fosse nem por sombras um “expert” na matéria, apostaria que eram de autores de renome.
Passados alguns minutos, Sofia regressou. Vinha espantosa de beleza, com um vestido que deixava antever, sem batotas, a perfeição do seu corpo. Ela sabia que era bonita e bem feita e não procurava esconder nada…
Dois copos, uma garrafa de whisky e estava criado o ambiente para finalmente ela me dizer o conteúdo do telefonema.
– Sabes quem me ligou?
– Não faço a mínima ideia….não conheço a lista dos teus amigos…
-Foi meu marido…
– A conversa foi fria….diria eu!
– Talvez…telefonou-me de Londres a dizer que não pode regressar hoje. Nem talvez no fim-de-semana.
– Tinham combinado encontrarem-se aqui…
– Sim, mas pelos vistos não pode…
– E vais ficar sozinha todo o fim-de-semana?
– Não tenho outra solução…mas talvez possa contar com a tua companhia…
(Um sorriso malicioso, a roçar a provocação, bailou-lhe nos lábios)
– Podes contar comigo. Aliás será com muito gosto que te farei companhia…

A conversa não foi muito mais longe. Confirmou apenas o que tinha dito quando lhe dei a boleia: que o marido viajava muito, hoje estava em Londres para a semana talvez em Bruxelas, afinal um homem de ciência que espalhava o seu saber em conferências por esse mundo fora. Foi a pensar que o poderia acompanhar, que tinha desistido de dar aulas…Mas isso foi só nos primeiros tempos. Depois ele começou a ir sozinho, deixando-a ou em Lisboa ou ali naquele recanto.
Era já tarde. Passava da uma da manhã quando deu conta que tinha de regressar. A bela companhia convidava a continuar, mas não podia ser. Tanto eu como Sofia precisávamos de dormir. Assim sendo, levantai-me do sofá e preparei a despedida, não sem antes a lembrar que no dia seguinte, logo de manhã, tinha de ligar ao serviço de assistência em viagem, para que o seu carro fosse transportado para Lisboa. Ela disse que o faria…
Combinámos novo encontro para o dia seguinte, para um almoço num local muito discreto que eu conhecia.
À despedida ofereceu-me a face para um beijo de despedida: nos meus lábios senti o aveludado da sua pele como senti a sua mão docemente pousada no meu braço.
Segui para o hotel com a certeza de que no dia seguinte o almoço seria magnífico.

Continua ???

Capítulo 4

Continuado por: Maria Lemos

Ao chegar ao hotel, fui directamente para o quarto, abri a porta de acesso à varanda. Sentia-se a brisa e o cheiro inegável a maresia, foi então, que me sentei debruçando os cotovelos sobre os joelhos, e com as mãos tapava a cara, esperando que as dúvidas que me assolavam se dissipassem, como a brisa que passa e refresca.

Não compreendia o que sentia em relação a tudo o que estava a viver, talvez, se deva ao facto de estar a experimentar estes sentimentos pela primeira vez. Mas que sentimentos, podia estar a sentir, se eu só a conheci à poucas horas? Será apenas, a sempre presente atracção física? Ou será algo mais? Será que sinto o que sinto por estar só?

De uma coisa eu tenho a certeza, provei pela primeira vez o gosto amargo da solidão… Nunca me havia sentido tão só como naquele momento. Nunca tinha experimentado a necessidade de fazer uma retrospectiva no campo amoroso e fi-lo com o intuito de provar, a mim mesmo, de que o que estava sentir pela Sofia, era completamente novo e não uma atracção passageira. O que era um problema. E um problema gravíssimo, a mulher por quem estava apaixonado era casada… bem ou mal ela era casada.
Estava muito ansioso para o almoço do dia seguinte, era uma espécie de uma partida para alguma coisa mais, para alguma coisa incerta!
Levantei-me a tempo de ver o sol nascer, a cama era verdadeiramente confortável, mas não consegui estar mais tempo deitado, parecia que pelo facto de me levantar as horas passariam mais rapidamente, e obviamente mais rapidamente chegaria a hora de a ver, de estar com ela, de sentir o seu perfume, e talvez de a beijar…
Chegou a tão ansiada hora.

Dirigi-me atempadamente para o restaurante onde havíamos combinado o almoço, escolhi uma mesa para dois com vista para o mar e para as dunas, a paisagem era fabulosa, digna de uma tela. O clima estava criado nada podia correr mal.

Passados 30 minutos da hora marcada ainda não tinha aparecido, estava a ficar nervoso e preocupado, pois questionava-me por que razão a Sofia ainda não aparecera, e como se isso já não fosse o suficiente, o empregado de mesa já tinha vindo mais uma vez ao pé de mim perguntar-me se podia começar a trazer os aperitivos, o que me irritava ainda mais.

Já passada quase 1 hora de espera, o empregado além de trazer o cardápio trás também um envelope muito pequeno, quando chegou ao pé de mim, perguntou o meu nome e após a minha resposta, entregou-me o envelope que vinha ao meu cuidado, olhei para todo o lado na expectativa de ver a Sofia, ela tinha estado ali … e … não veio ter comigo. Hesitei em abrir, o envelope, sentia uma espécie de revolta, senti-me menosprezado. Perguntando-me se esteve aqui, porque não veio falar comigo olhos nos olhos?! Não eram necessários bilhetes, a adolescência tinha já passado há anos, portanto se me queria dizer algo porque não o fez? Ela esteve aqui, caso contrário quem entregaria a carta ao empregado?

Mais calmo, chamei o empregado e questionei-o sobre quem lhe havia entregue o envelope, e a descrição que ele fez correspondia à mesma caracterização física da Sofia.

Ignorando o porquê de tudo aquilo, decidi abrir o envelope, certamente encontraria ali a resposta. Tirei um pedaço de papel que estava dobrado em quatro partes e senti o perfume dela, desdobrei-o e li:

“Lamentavelmente não poderei usufruir da tua companhia hoje. Surgiu um imprevisto, o meu marido, ligou-me e está a chegar, parte novamente amanhã. A propósito estás muito bonito e a mesa era a ideal. Um beijo Sofia”

O mundo desabou sobre mim naquele momento, senti-me o mais desafortunado dos homens…
No caminho para o hotel, passei pelo mercado local, para me distrair um pouco, quando não é o meu espanto quando vi a Sofia acompanhada pelo marido e ….

Continua…

Capítulo 5

Continuado por: Orlando Dias Agudo

…e fiquei ainda mais desorientado quando reconheci imediatamente o marido de Sofia: era o Gabriel, meu companheiro de liceu, um predestinado para as matemáticas, pouco dado até a namoricos, mas que, pelos vistos, tinha conseguido casar com uma mulher de sonhos. Quando me viu, Sofia fez questão em chamar por mim. Dirigi-me para o casal e tal como eu havia reconhecido imediatamente o Gabriel, ele também me reconheceu de imediato. Caímos nos braços um do outro, perante o olhar estupefacto de Sofia e o diálogo logo funcionou:
– Mario, como é bom rever-te! Há anos que não nos víamos…
– Pois, tu nunca vais aos almoços da malta…
– Sabes, a minha vida transformou-se um pouco…Depois da faculdade, as coisas encaminharam-se depressa demais e hoje sou mais escravo do que um ser humano com agenda livre….

Sofia olhava para nós completamente absorta. E foi ela quem interrompeu aquele diálogo:
– Mas…vocês conhecem-se?
– Claro que sim – adiantou-se Gabriel – nós fomos colegas de liceu e depois as nossas vidas seguiram rumos diferentes…
-Mas este é o Mario que me salvou no meio do nada, quando fiquei sem automóvel…
– Foste tu ?
– Fui….mas fiz apenas o meu dever….
– Temos de comemorar este encontro e tenho de te agradecer o facto de teres safado a Sofia de um problema…Olha: vens hoje jantar connosco e a nossa casa. Não me digas que não podes…
– Poder posso…mas se calhar estrago os vossos planos…

Sofia salvou a situação:
– Não temos nada combinado…Aliás quem encomenda jantar para dois, encomenda para três…

E ficou combinado o jantar. Não deixei de reparar no agrado que a ideia provocou em Sofia, que me fulminou com um olhar malicioso que eu não esperava. E não evitou um piscar de olho ainda mais provocante, que me arrepiou perante a hipótese de Gabriel poder ter visto e interpretado mal.
A caminho do hotel não deixei de pensar no Gabriel que eu conhecera: era um rapaz algo introvertido, que só via número á sua frente, daí ter escolhido uma área de ciências enquanto eu havia seguido letras. O que me admirava era ele ter conseguido uma mulher daquelas, bonita de verdade e com um corpo de espantar. Decerto que durante o jantar ia conseguir descobrir como tinha ele conseguido alcançar aquela meta.

O jantar estava marcado para as 9 da noite. Mas fiz questão de chegar um pouco antes. Quando bati á porta foi Sofia quem veio abrir. Antes de me mandar entrar, brindou-me com um beijo na boca que me deixou atarantado. Depois disse:
– Entra. O Gabriel foi encomendar o jantar e ainda não regressou. Ainda bem que vieste mais cedo…

Continua…

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Capítulo 6

Continuado por: Marta Luís

… Teria eu realmente chegado mais cedo…?!

Teria aquele beijo vindo parar aos meus lábios, por vontade própria daqueles lábios que o meu antigo companheiro de faculdade, pelos vistos, andava a perder…?!

O pulsar de meu coração já nem tinha intervalos…à medida que Sofia me arrastava pela mão para a sala, meus braços perdiam forças, e eu ia tão depressa que quase corria atrás dela, mas estava realmente impotente, perante esse dilema que me assaltava:

Recuo em minha defesa, em defesa da amizade de outrora pelo Gabriel, ou deixo-me levar, por essa bela Sofia, e por uma vez, perco a razão, em nome do amor…?!

Senti-me nestes infindáveis segundos, percorridos entre a porta de entrada e a divisão seguinte, um taquicardíaco desesperado, à procura de uma plataforma onde segurar meu coração.

Acalma-te Mário, comandava eu os meus neurónios em pensamento… estás a imaginar coisas…a rapariga apenas está a ser simpática contigo, e a intimidade daquele beijo de boas vindas, se calhar é já tão simplesmente habitual, entre os amigos do casal…afinal, tu é que conheces o Gabriel, e de resto, foi ele quem te convidou desta vez, a estar aqui…

Logo eu tão racional, tão entregue ao que era justo e certo, levo à chegada para um jantar, com um delicioso beijo, de uma mulher irresistível, que me desnorteia…logo essa mulher…a mulher que ontem andou comigo na areia, a mulher que passei a noite a questionar ao destino o porquê de a atravessar no meu caminho, essa mulher de um conhecido do qual perdera durante anos o rasto e, que aparece do nada, sem avisar… como quem vem marcar o território.

Inconscientemente, sei até que, é a presença dele, ou neste momento a ausência dele, que me atiça ainda mais, este desejo inexplicável que sinto.

Sempre quisera ser tão bom quanto ele, e agora ali estava na minha frente, um dos seus tesouros, quem sabe, o seu maior tesouro, a esticar-me os braços…ou talvez não…

Acho que dormi pouco e, estou em perfeita dislexia de interpretação dos factos.

Uma doce voz que, já nada me é estranha, interrompe o meu divagar:

– Mário, nós temos que falar! …diz-me Sofia… Queres que te sirva algum aperitivo?

– Aperitivo…eu?!…pode ser… o que servires para ti, está bem…Mas, não esperas o teu marido?!

– Não brinques comigo… – Por momentos a sua expressão ficou muito mais séria, como que entristecida pelo meu comentário – Há meses, que não faço outra coisa…esperar pelo meu marido!…Ele depois bebe. Anda, vem comigo ao jardim…!

Mais uma vez me arrastava, aquela doce criança grande, loira, deslumbrante.

Agora de novo com um sorriso, movimentava graciosamente um rabo-de-cavalo enlaçado por pérolas brancas, mais bonita ainda que na noite anterior, num vestido de rosas de renda, suspenso por cordões de alças, e até abaixo do joelho. Renda azul feita à mão, e que lhe assentava como uma concha, deixando as suas formas tão generosas, parecerem tão naturalmente minhas…e estava descalça… tão sensualmente despida, de pés e mãos, uma nudez de membros apenas quebrada, pela tal da aliança, reparo.

– Anda…vem comigo ao baloiço…está naquela árvore, junto à piscina!

Só parecia um puto eu, sem saber que pedir a Deus: Se, tira-me deste filme, ou se, faz com que o anjo Gabriel se demore…

E, depois a casa de praia, tão simpática… aquela relva que só acabava no mar, ainda molhada, e que a rega brindara com água fresca este fim de tarde…e ela, a saltitar por ali…em direcção ao baloiço…em direcção a mais um pôr do sol…

– O Gabriel vai trazer comida pronta, e eu já preparei a mesa…não precisamos de mais nada lá dentro agora…vem…não queres vir? – Parou ela de repente.

E eu atrás dela, puxado, quase de rojo, que nem dois adolescentes no cenário mais improvável que alguma vez imaginara…parei de encontre a ela…foi como ter partido uma asa…caí ao embater naquela flor azul que perseguia, e que de repente parou sem fazer sinal, à minha frente…foi mais um acidente de percurso, mais uma vez estava com ela atravessada no meu caminho.

Senti o seu peito… O coração de Sofia batia tão depressa como o meu…e estávamos ali, num inicio de noite, final de tarde de sonho, numa casa como que uma cabana, ela descalça e eu de fato inteiro e gravata, e nos braços um do outro, para não irmos ao chão…as mãos dela, poisaram suavemente nos meus braços, e os seus olhos verdes, brilhavam quase incandescentes para os meus…

– Sofia… o Gabriel… balbuciei eu, … Tentava filtrar o convite que o seu olhar me lançava, tentava travar o seu queixo macio, que roçava o meu ombro, tentava esfriar esse ardor, que me invadia o corpo todo… mas não queria…

-Já equilibrados, e refeitos daquele pequeno embate, ela esticou um dedo até meu nariz, desceu devagar à minha boca, e disse: – Psiuuuuuu.

– Não fales no Gabriel…não tarda estará ele aí, a falar por todos nós. Fala, pelos cotovelos, e vai maçar-te com toda a sua investigação e os seus feitos… Pensei que, tivesses vindo para um fim-de-semana, só teu…sem compromissos…!

Voltou a levar-me pela mão, e sentou-se na tábua do baloiço, pendurada por duas grossas cordas num aparentemente frágil, mas resistente tronco, e esticou as pernas, levantou os pés e, lá vai ela, andando para trás e para a frente, como quem me hipnotiza neste balançar.

– E vim…tu é que tiveste um problema com o carro lembras-te?…pediste-me ajuda…

Pus-me atrás dela, como quem empurra uma criança e, depois de agarrar as cordas, ela prendeu com as suas, as minhas mãos.

– Foi o melhor problema que me aconteceu nos últimos tempos… se lhe quiseres chamar um problema!

E voltando o pescoço tão claro e , tentador, pareceu-me que esticava de novo seus lábios para mim…

Já nada me importava, nem a envolvente, nem o Gabriel…

Supostamente, qualquer outro homem não ficaria a pensar, nem uma, nem duas vezes, num momento destes, mas sem querer, sem saber como, sei lá porquê, ali passaram-me duas ideias pelo pensamento, e voltei a lembrar-me de duas caras, que há muito não me apareciam…

Meu pai (aquele que, morrera num acidente de mota com minha mãe, eles, que se despistaram os dois, depois de uma vida cheia de aventuras em que não precisavam de mais ninguém para ser felizes) … Meu pai, marcara-me aos catorze anos, dizendo-me: “Nunca magoes uma mulher, só assim te poderás prevenir, para que menos elas te magoem…!”

Deveria eu aceitar ser o refúgio, o conforto que Sofia procurava em mim, depois de me ter confessado que andava desiludida, com o seu casamento?…E logo agora, sabendo que o tal marido que está sempre distante, era o meu amigo Gabriel…?

Minha mãe, sim, minha mãe também me ensinara a ser forte e a dizer que não, ou que sim, entre muitas outras coisas, quando tentei iniciar as aulas de mergulho e, à primeira descida hesitei. Ela estava lá, no barco comigo, quando aos meus desasseis anos naquela manhã me disse: “Em tudo na vida filho, só deves dar um passo em frente, quando a vontade for maior que o medo!”…e foi assim que, desisti do mergulho, mas abandonei o barco de cabeça erguida, dizendo que, as profundezas do oceano, não foram feitas para mim.

Sim, foram os meus pais, que perdi em simultâneo, quando tinha os meus rebeldes vinte e dois anos, que mesmo tão pouco tempo comigo, me ensinaram a fazer as escolhas mais difíceis.

E agora, sentia a falta deles, neste preciso momento. Isto só poderia querer dizer, que realmente era importante, o que se estava aqui a passar.

Encostei os meus lábios aos seus, como se sempre o tivesse feito, como se há muito tempo fossem meus.

Já não tinha medo…só vontade, e sei que Sofia também.

– Ah estão aí… já está escuro…! Cheguei, … venham se não arrefece…!

Chamou uma voz desde o alçado envidraçado e aberto, que dá para o jardim, para a piscina, para o baloiço, para aquele mar, que se estende atrás de nós.

Sim, chegara o Gabriel…

Capítulo 7

Continuado por: Orlando Dias Agudo

Gabriel chegara no momento certo. Não fosse o seu grito anunciando a sua chegada, e não sei se nossos lábios se desgrudariam tão cedo. Mesmo assim, ainda senti a sua língua explorando a minha boca, numa dádiva tão intensa quanto a fome de sorver meus lábios. Foi por pouco que Gabriel não viu aquele beijo…ou se viu, disfarçou muito bem…

Logo que deu sinal de vida, Gabriel voltou para casa, mais preocupado em arrumar tudo quanto trouxera do que em saber o que estávamos a fazer no baloiço do jardim. Sofia, nada incomodada com o facto do marido ter tido hipóteses de assistir ao beijo, saltou do baloiço qual criança mimada e desafiou-me a regressar ao casebre.

– Mário…gostei do sabor dos teus lábios…

– Eu também, mas nunca esperei que isto pudesse acontecer…

– Eu depois explico…deixa correr os acontecimentos…

Limitei-me a encolher os ombros. Deixei que ela pegasse outra vez na minha mão e me guiasse para casa. Desta vez íamos a passo e não trocámos mais nenhuma palavra. Sentia, isso sim, uma agradável pressão da sua mão na minha, como se segurasse alguma coisa que não queria perder. Nesta altura, eu já não raciocinava direito. Era capaz de deitar os princípios às ortigas e aceitar aqueles convites sucessivos para satisfazer os desejos que me invadiam. Mas, como Sofia me dissera…ia deixar correr os acontecimentos…

Chegados a casa, Gabriel estava a atender o telemóvel, enquanto alinhava tudo para o jantar. Era ainda cedo, por isso Sofia resolveu ir tomar um duche muito rápido enquanto me estendia o copo de whisky que ficara em cima da mesa antes de termos ido ao jardim. Enquanto Gabriel atendia o telemóvel, Sofia segredou-me que ia tomar um duche frio…não deixando de me piscar o olho num gesto provocador…

Entretanto Gabriel continuava ao telefone. Ouvia mais do que falava. Perguntou se não havia outra solução, olhou para o relógio e encolheu os ombros num gesto de resignação. Eu continuava a deliciar-me com o whisky que Sofia havia preparado. Quando finalmente Gabriel desligou o telemóvel, virou-se para mim e fez aquela pergunta que todos fazem em circunstâncias semelhantes:

– Meu caro, o que estás a beber?

Respondi e logo Gabriel começou a falar do seu trabalho. Sofia bem havia dito: “quando ele começa a falar das suas coisas, nunca mais se cala”…Passados alguns minutos, Sofia veio salvar a situação entrando de roldão na sala. Vinha deslumbrante, se é que algum do seu vestuário não a deixava sempre assim. Mas as calças justas deixavam antever o desenho das suas belas pernas, enquanto a blusa deixava adivinhar uns mamilos bem hirtos nuns seios suficientemente desenvolvidos para me agradarem.

– Amor, temos de jantar já porque surgiu um contratempo – e ao falar assim Gabriel não escondeu o desagrado que sentia…

– Contratempo? – perguntou Sofia – Era só o que faltava…O que é desta vez?

– Vamos jantar….depois digo….

– Não será melhor dizeres já? Para sabermos com que contamos?

– Está bem, eu digo; depois de jantar tenho de ir apanhar o avião para Lisboa, porque amanhã de manhã tenho de estar em Bruxelas.

– E vais no avião da noite?

– Sim…do escritório fizeram a reserva para o das 23:30. Temos portanto muito tempo para jantarmos e gozarmos da companhia deste meu amigo e antigo colega….

Se a noticia deixou Sofia aborrecida, não se notou. O jantar decorreu de forma normal, apenas com um protagonista. Gabriel falava por si e por mim mais Sofia. Nós trocávamos olhares , talvez mensagens indecifráveis, até que chegou a hora de Gabriel seguir para o aeroporto. É evidente que me ofereci para o levar. Só que Sofia teimou em ir também.

E fomos…Quando o deixámos no aeroporto, Sofia pediu-lhe para ligar quando chegasse a Lisboa, deu-lhe um beijo tão frio quanto se pode imaginar e ela quis assistir á descolagem do avião. Para ter a certeza, confidenciou-me…

De regresso ao carro, perguntei-lhe se queria ir a qualquer local beber um copo ou se preferia ir para casa. Respondeu-me que preferia ir para casa, pois esperava o telefonema do marido e…tinha muito para conversar comigo.

Não trocámos uma única palavra até estacionar o carro á porta da sua vivenda….

Continua…

Capítulo 8

Continuado por: Marta Luís

– Chegámos…Foi a única palavra que me saiu, quando soltei a chave da ignição, frente àquele refúgio.

– Vamos. Respondeu-me Sofia prontamente.

Já não estava ansiosa como no aeroporto…pareceu-me serena, descansada. Pelo menos o silêncio daqueles minutos, terá servido para a descontrair.

– Não sei se deva entrar!…Respondi, e logo em seguida me arrependi, com medo que ela pensasse o mesmo, naquele preciso instante.

– Deixa-te de coisas, e entra…ainda temos a sobremesa!

Atirou-me com aquele olhar que mais uma vez me desconcertou.

Sinceramente, o meu apetite, era cada vez maior, talvez por reconhecer em cada gesto seu, em cada silêncio, em cada olhar, essa mesma vontade de estarmos juntos, também da parte dela. Mas, e o Gabriel? Que iria eu fazer com esse respeito que lhe devia?…E ela, Sofia, iria conseguir desligar-se dele, enquanto estivesse comigo, logo agora, que nos sabia conhecidos de tantos anos…?

Abriu-me a porta, como quem inverte os papéis e, foi uma verdadeira cavalheira comigo, estendendo-me a mão, já do meu lado do carro, do lado de fora, e deu a volta, sem eu me aperceber, enquanto pensava, e mais uma vez penso que, estava a pensar demais. Afinal, eu é que estava a ser chamado, atraído, a todo este emaranhado de sentimentos, de acontecimentos tão inesperados, e tão simultaneamente fortes, tão inocentes e românticos como cheios de fantasias que me assaltavam a mente, que chegavam a magoar de tão reais.

Deixei-me mais uma vez levar…nada tinha a temer. Aliás, com mulheres, já tinha perdido tudo o que havia para perder…anos atrás. Consegui segui-la até á sala, sem receio, e sem uma palavra, mantendo o silêncio que ela própria impusera na viagem desde o aeroporto até aqui. Entrou à minha frente, e descalçou-se, sem fechar a porta, (fui eu que a bati) e, soltou-se do grande lenço que lhe escondia o pescoço…e foi direito ao bar…

Estávamos ainda de pé… eu sem sabia por onde começar, a falar, ou a ouvir.

Tinha a sensação de que esta conversa não iria agradar-me, nem sequer estava interessado em conversar, com esta mulher que me atormentava desde que a vira a pedir ajuda na estrada a primeira vez, há dois dias atrás. Essa, que pouco me interessava se era praticamente uma estranha, ou se era a mulher de um antigo amigo da escola, e que afinal até já nem estava ali, nem na sala, nem no casamento deles, a mesma que me despertava uma vontade louca, sem medo, de a agarrar.

Serviu-me um velho malte, igual ao seu, e estendeu-me o braço, o copo, … e como um íman, o corpo todo.

Sem mais dúvidas, voltou a tirar-me o copo das mãos e, beijou-me, como se sempre o tivesse feito, e eu saboreei-a, como se já conhecesse aquele gosto, e gostasse, há tanto tempo!

Um beijo a que nunca em tempo algum, alguém conseguiria dizer que não, pelo menos eu….

Nem foi um beijo, nem de despedida, nem de chegada, ou de partida. Foi um beijo como que uma senha, um convite, para ir mais longe, para não parar por ali.

Esta mulher ou sabia, ou sem querer mesmo conseguia excitar-me, ao ponto de a querer beber, sugar de amor, e eu ainda bem que tentei parar, mas, não consegui:

-Sofia…! Nós íamos falar de alguma coisa…! Queres dizer-me …?

– Não. Não quero dizer-te nada…neste momento não há palavras que possam exprimir o que sinto!

Olhou-me nos olhos como quem tem um rasgo de lucidez, e no meio de tanto fulgor, imperava a clareza da sua fala, mais uma vez, surpreendendo-me:

-Quero viver este bocado contigo sim, quero sentir-te em mim, sem que palavra alguma te afaste, ou te force…

Ia dizer mais alguma coisa sim, mas não o permiti… Calei-a, com o grito feroz de todo o meu desejo, apertei-a em meus braços, e não insisti mais em ouvir o que quer que fosse, que me roubasse aquela mulher ali, e agora.

Foi minha, lentamente e docemente, infinitamente minha.

Fomos um do outro, pela sala, pelo chão, e as horas passaram e nós acordados.

Estava esgotado, Sofia não menos… Acabáramos na banheira, enlaçados um no outro, afogados em prazer.

Foi quando ela se preparava para ir buscar algo para comermos ao frigorífico que, tocou o telefone. Eram 6 e meia da manhã, e o sol nascia para nós, assim como um novo dia.

– Bom dia…sim acordei! Seca, distante, ela lá ia acenando, e dizendo que sim para o telefone.

Ali, eu senti-me a aterrar de um sonho… acabara de seguir o meu coração, e consequentemente de trair, um velho amigo, e de faltar ao escritório onde já deveria ter chegado ás 5 e 30, para mais uma semana super certinha, de agenda cheia e organizadíssima.

Do outro lado, claro que era o Gabriel, pareceu-me explicar-se, de que não ligara ontem à chegada, porque já ia cansado e, dizia que não sabia quando ia voltar.

– Não faz mal, quando souberes liga.

… Continua…

Capítulo 9

Continuado por: Orlando Dias Agudo

Aproveitei para fazer o resumo da situação: tinha passado a noite com a mulher de um antigo colega, estava em falta para com as obrigações profissionais, estava em guerra com a minha consciência…e estava com uma vontade enorme de repetir tudo pelo menos uma vez mais. Sofia, impávida e serena, vestindo apenas um roupão muito ligeiro, continuava a preparar o nosso pequeno-almoço que, pelas calorias dispendidas nas últimas horas teria de ser bem suculento…

Quanto a mim…permanecia estendido no sofá onde não me cheguei a sentar na véspera, apenas com uns calções que deveriam ser do Gabriel, esperando e pensando ao mesmo tempo. Foi quando Sofia surgiu, com a bandeja cheia de torradas, uns frascos de doces, mais queijo e manteiga e duas chávenas de café com leite. Colocou a bandeja em cima da mesa, veio para junto de mim e ofereceu-me aqueles belos e sensuais lábios. Quando os desgrudou dos meus, fez a primeira queixa:

– Ontem mordeste-me o lábio…

– Sinal de que o queria comer, – respondi com um sorriso malandro….

– Mas acabaste por comer muito mais do que o lábio….

Resolvi não dar continuidade á conversa pois poderia acabar de uma forma pouco digna. Preferi orientar noutro sentido…

– Mas agora estou mesmo a precisar é de uma torradinha e de um café…Aposto que estão deliciosos…

– Vamos e enquanto mastigamos, podemos finalmente pôr a nossa conversa em dia…

Sentou-se na minha frente, olhando-me com aqueles grandes olhos e sempre com um sorriso a bailar-lhe nos lábios. E foi durante o pequeno-almoço que finalmente Sofia começou a falar…

– Olha Mário: vou ser extremamente directa naquilo que tenho a dizer. É evidente que quando pedi a tua ajuda, no meio da estrada, não fazia ideia de quem eras. Para falar verdade só soube no dia seguinte, quando contei ao Gabriel quase tudo quanto me havia acontecido e ele descobriu, por A+B, que quem me ajudara no meio da estrada só podias ser tu. Não me perguntes como chegou a essa conclusão. Só sei que depois de muitas perguntas, incluindo a matrícula do teu carro, ele chegou á conclusão que quem socorrera a sua esposa era um antigo colega do liceu.

Propositadamente, não interrompi…

– Depois, a minha cabeça começou a funcionar. Era evidente que tu me agradavas, eu muito provavelmente também te agradava, portanto o destino havia traçado o rumo a seguir. Porque, Mário, e isto agora é muito sério e peço-te que guardes segredo, pois só nós os três estamos dentro deste segredo. Concordas?

-Claro que sim….mas começo a estar intrigado….

– Não há nada para ficar intrigado. O que se passa é que Gabriel é estéril e simultaneamente herdeiro de uma fortuna incalculável. Mas há um pequeno óbice: a fortuna não vai directamente para ele, mas sim para um filho que afinal de contas ele não pode gerar. Coisas de uns tios donos ainda dessa fortuna, que colocaram em testamento essa condição tendo-lhe dado conhecimento. Portanto a situação é a seguinte: Gabriel precisa que eu lhe dê um filho…mas ele não pode ser pai.

– E onde entro eu?

– Eu e ele escolhemos que serias tu o pai dessa criança….

– Por isso o primeiro beijo ontem á noite…e a oferta depois de termos ido ao aeroporto?

– Não…não confundas…O beijo foi porque me apeteceu e a oferta, como tu dizes, foi porque…estava necessitada!

– E porque julgam vocês que eu alinho na concretização dessa história?

– Ainda não sabemos que alinhas ou não…claro que no aspecto legal o Gabriel falará contigo. E ao recordar esta noite, estava quase disposta a apostar que aceitarias…

– Tenho de pensar…mas agora precisava mesmo era de um banho….

– Eu também….vamos juntos tomar um duche?

O convite era irrecusável. E ela sabia. Por isso levantou-se da mesa, pegou-me na mão e puxou-me até á casa de banho. Sem nunca me largar, pôs a água a correr, desatou o laço que apertava o roupão que caiu indiferente a nossos pés. Depois, ela própria tirou os meus calções. Depois foram dois corpos nus que entraram na banheira, para se fundirem num só, uma, duas, três vezes, sei lá quantas mais!

Capítulo 10

Continuado por: Marta Luís

Acabei de chegar, e já todo eu ansiava que fosse final do expediente, o que normalmente acontece só lá para as dez da noite. São oito e meia da manhã, e tenho a terrível sensação de que, todos me olham de lado, como se realmente, eu retornasse diferente do que era, há poucos dias.

Sei que já é terça-feira, sim, faltei um dia ao escritório, e depois?…Ninguém morreu, aliás, liguei a cancelar tudo o que tinha para ontem na agenda.

Na portaria, parecia tudo igual, até as flores, mas voltando atrás uns instantes, vejo o Sr. João, no cumprimento de cabeça habitual, e logo aí, um sobrolho franziu.

No elevador, a Marlene já com os jornais de hoje debaixo do braço, no seu fato saia casaco impecavelmente bem passado, nem bom dia me disse, o que não acho nada normal, tendo em conta que me apaparica todos os dias, de forma extremamente insinuada, de cada vez que se cruzamos, em trabalho ou não.

Ninguém me espera na sala, e pensava eu, que ela adiara os compromissos para hoje, para não fazer esperar mais os clientes.

Entro no meu gabinete, e nem sequer cheira a café…a minha assistente está de mau humor, e eu estou realmente, sem paciência, como há muito não me trancava, indisponível para qualquer tipo de conflito, quer profissional, quer pessoal. Trago o corpo cansado de tanto prazer, e também da viagem, e o cérebro desgastado de tanto tentar desenrolar-me da teia em que me vi envolvido, este fim de semana, prolongado e tão complicado, isto psicologicamente, porque de resto foi dos melhores que já tive…!

Passei duas horas de caminho, sem apreciar a paisagem, sem aferir o muito ou pouco trânsito, sem mais em que me embutir senão no meu mais recente e maior puzzle humano de sempre, sempre a matutar, em como vou eu sair desta, ou a tentar decifrar, se quero ou não sair, desta história inimaginável.

– Dr. Mário … Oiço a Marlene e a maior das indiferenças aplicada naquela voz, que até tinha por hábito ser meiga… Tem um recado urgente em cima da sua secretária. Precisa de alguma coisa?

– Marlene, então e”Bom Dia”, já não se usa, neste escritório?

– Algumas coisas mudaram, por estes dias doutor.

– Sim?… Há novidades?!…Então, traz-me um café e vamos rever tudo.

– Trago já doutor. E saiu, sem um sorriso. Algo de estranho se passara, por aqui, também.

Pelo tom de Marlene, prevejo no imediato que, o resto da semana, será muito terra à terra, tão rotundamente frio, que o suponho desde já um resto de semana violento. Ela era tão certinha como eu. Como eu era, porque agora, depois disto já nem sei…Ainda estava a ambientar-me, como que a aterrar, deste sonho que começou sonho e, se tornou em dilema, e de dilema passou a grande confusão na minha cabeça, pior que isso, grande pancada, no meu coração.

Desde os meus vinte e cinco anos que não me sentia assim, tão enamorado, tão enfeitiçado por alguém, e era Sofia, quem não me saía do pensamento, como gravada no meu corpo. Em tão pouco tempo, conseguiu fazer-me de novo adolescente e esperançado, acreditar que havia alguém com quem eu poderia fazer um par.

Desde a Maria, a minha grande paixão, Maria, que me trocara por outro amor, há dez anos. E desde aí, todas eram marias passageiras para mim, sem que tivesse nunca nascido mais pequeno tipo de vontade de me prender a nenhuma, como agora, se insurgia este elo tão forte com Sofia.

Mas não, esta Sofia/Maria, também não era para mim, estava lá o Gabriel com ela, era casada, embora o seu cheiro ainda estivesse entre a minha pele e a ponta dos meus pelos, embora o toque macio e sábio dos seus lábios, ainda soubesse a pouco nos meus.

E mais, os dois queriam usar-me para terem um filho, uma criança que nem sequer desejavam, apenas queriam, para herdar, valores que se levantavam. Ou pelo menos, fora esta a treta que me impingiram.

Fui até á janela, e entreabri a persiana. O sol ameno e as nuvens brancas, e cheias de forma e expressividade, como que a 3 dimensões, as pudesse tocar, logo ali ao estender da mão, estas nuvens e, a luz de Lisboa, fizeram-me falta. Sim, estava a precisar de paz. Tinha uma resposta para dar a Sofia, até ao próximo fim-de-semana, e não estava minimamente interessado em trabalho, em acusações, em defesas, em argumentos, em provas, em esquemas viciados de processos obsoletos, que já nada me diziam, quando tinha em mãos este caso tão delicado e, tão simples ao mesmo tempo, para resolver.

Simples, porque não caberia na cabeça de ninguém aceitar uma proposta destas: Ser pai, de um filho que um casal queria ter, apenas para apoderar-se de uma herança.

Bolas, que coisa fria! Podiam ao menos ter-me dito que a esterilidade os mantinha infelizes, e que o sonho do casamento que os unia era terem esse filho, que me pediam. Mas não, nem isso, para tornar menos calculista e um pouco mais romântica esta proposta indecente que me deitaram aos pés… E, que seria dessa criança? Será que tinham pensado nisso?

Simples, porque bastava ter dito logo que não.

Mas torna-se tão delicado resolver um pedido pelo não, quando no fundo até queria ter mais uma vez, aquela mulher nos meus braços, no meu colo…

Eu dava-lhe todos os filhos que ela quisesse, se os quisesse meus, e para os ter comigo. Ah se ela soubesse…o quanto eu estava desejoso de plantar nela a minha semente…!

– Está aí doutor? Tem aqui o seu café.

Entrou a Marlene, e voltei a cair em mim. E começava a intrigar-me este desprezo todo.

– Então, só um? Não trazes para ti?

– Já bebi lá em baixo, obrigada. Se não precisa de mais nada, retiro-me, estou no meu lugar.

– O que aconteceu, no fim-de-semana por aqui?

– Por aqui nada…mas em compensação, o seu fim-de-semana deve ter sido muito interessante…! E voltou-me as costas, inabalável aquela Marlene que se revelava realmente zangada comigo hoje, por uma qualquer razão.

Tirei o casaco, agarro no pires do café, e em meditação suplico aos céus com todas as minhas forças, para que não hajam mais chatices destas para me distrair do que realmente hoje é importante para mim. Voltar a assentar os pés no chão, entupir-me de trabalho para esquecer e, depois sim, fazer uma cura de sono e arrumar as ideias, para me decidir, quanto ao que fazer com Sofia e com o seu pedido, seu e do seu marido, o meu amigo Gabriel. O estéril que não se importava que eu fecundasse a sua esposa, só para ganhar, muito dinheiro com isso, e só por isso. Estou definitivamente, a encher-me de revolta ao pequeno almoço.

Pouso de novo a chávena do café que já bebi de um só trago… e lá estava, o recado de que Marlene me avisara:

– “Doutor: Ligou a sua amiga Sofia, para dizer que esta madrugada, antes de sair, trocou os telemóveis. Ela vem a Lisboa amanhã. Assina: Marlene.”

Agora sim, percebia a indiferença, o amuo de Marlene, que nunca conseguiu demonstrar-se indiferente aos meus casos, e a quem um telefonema destes pela manhã, a deixara certamente, escandalizada, completamente incrédula.

Há meses, que Marlene me dizia para sair, para me distrair, para partilhar as horas pós laborais com uma presença feminina, acredito, sempre na esperança de um dia, eu a convidar a ser essa pessoa, a meu lado, em qualquer lado menos ali, no escritório.

E agora ela estava decepcionada comigo. Eu ligara ontem a dizer que, me tinha retido mais um dia fora, para estudar o caso que tinha em mãos, e para preparar a defesa de um amigo dela, que entendia inocente, numa acusação de burla agravada. E agora ela sabia, que eu mentira.

Sim, nem eu me reconhecia após este fim-de-semana. Dormi vezes sem conta e, amei outras tantas vezes, a mulher do Gabriel, a mulher que com ele, quer um filho meu. Baldei-me ao trabalho, e menti àquela que até hoje se achava a minha maior confidente, a minha dedicada assistente.

Abro a pasta que largara na poltrona há instantes, e pego o telemóvel. Sim, o meu e o da Sofia eram iguais, na cor e modelo, daí a troca. Sinto o seu perfume, neste objecto pequeno e raso, e não resisto a apertá-lo entre as palmas das mãos…e a abri-lo.

Levantei a tampa, e confirmo, o fundo escolhido não era o meu, não tinha a águia, nem o brasão do glorioso, tinha uma borboleta, bonita sem dúvida alguma, só poderia ser um telemóvel feminino, tal como a dona, sensual até nestes pequenos toques.

“Tem uma mensagem nova”, leio no visor, e instintivamente, aceitei ler, como se fosse o meu telemóvel, quase sem querer, mas no fundo, por querer mesmo ler, quem e o quê, escrevera à minha musa, nas últimas horas.

E, há uma ideia que baila, neste desenrolar do meu café da manhã, e frente a este recado de Marlene: Se Sofia ligou, sabia o número do escritório, e para saber, teve que o descobrir, mexendo no meu telemóvel, e consultando a minha agenda pessoal. Então, porque não posso eu fazer-lhe o mesmo?! Claro que posso…Desconcertado parti à descoberta do que não queria, naquele pequeno telefone, que Deus quisera pôr, nas minhas mãos.

O Remetente era apenas a palavra “Amor”, em maiúsculas, pelo que deduzi, fosse o Gabriel. E o SMS era curto: “Volto na sexta. O congresso é de 3 dias. Bruxelas precisa de mim. Beijos” …e de repente apanho um susto, que quase recuei atónito. O telemóvel tocou e vibrou nas minhas mãos, e inexplicavelmente, eu ao segurá-lo, atendi a chamada.

Estava em linha com o amor, do meu mais tempestuoso amor de sempre e, não podia dizer uma só palavra. Limitei-me a encostar o móvel ao ouvido e, a suspender a respiração, naquele minuto que se seguiu:

– Amor, recebeste o meu SMS?…sim amor …Sofia…está lá… Sofia… não deves ter rede, …já te ligo ….E desligou.

Ainda estava meio atordoado com este inesperado telefonema, tanto que me sentei abruptamente naquela poltrona que me recebeu sem qualquer queixume.

Do outro lado o Gabriel. Aqui, estou eu, e no meio a Sofia.

Mais uma vez, entrei em transe, e divaguei entre a realidade que eu queria e sentia, e a realidade que me tinham transmitido. Planava entre a frieza com que os dois, ele e ela, se tratavam na minha frente, e entre estas pequenas demonstrações de carinho e, mais baralhado ficava, com as cenas exaustivamente fantásticas de prazer que vivera nos últimos dias, com aquele amor, que não era meu.

A minha primeira vontade agora era voar para o Algarve outra vez. Sabia que o Gabriel ficaria fora por mais alguns dias, e mais, que no fim-de-semana, estando ele, não poderia estar eu, com Sofia.

E porquê viria ela a Lisboa?

Reaver o telemóvel?

Para isso servem as transportadoras.:!

Mais uma vez tinha a certeza, que ela também me queria, muito mais a mim, do que àquele filho, que não existia, e que nunca iria existir, pelo menos no final que eu idealizava, para esta história.

Já em cima da secretária, o telemóvel dela, voltou a tocar…

Capítulo 11

Continuado por: Orlando Dias Agudo

Agora sim, estava fortemente convencido que estava num beco sem saída. E pior do que isso, tinha perdido o controlo da situação, já que, sem saber como, algumas coisas tinham acontecido sem eu delas ter tomado consciência. E tinha de reconhecer a inteligência de Sofia. Pela forma como me tinha “dado a volta” e também como me soubera ultrapassar nos factos. E a troca dos telemóveis? Teria sido ocasional ou pensada e realizada com toda a frieza.

Era isso que tinha de saber. Se não começasse a raciocinar com lógica, perdia por completo os cordelinhos da situação e passaria a ser eu a marioneta deste teatrinho de fantoches.

Para tentar iniciar a arrumação das ideias, peguei no telefone fixo do escritório e disquei o número do meu telemóvel. Seria certamente a Sofia a atender e se o fosse talvez descobrisse alguma coisa mais….Ao terceiro toque Sofia atendeu…

– Sim…

– Quem fala, perguntei…

– Não me digas que não conheces a minha voz…

– Peço desculpa, mas estou a tentar falar para…mim…para o meu telemóvel…

(do outro lado ouvi, nitidamente, uma salutar gargalhada…)

– O telemóvel pode ser seu, mas não é você quem está falando…- respondeu Sofia…

– Pois, eu não sou….o que acontece é que perdi o meu telemóvel e estou tentando saber onde o posso ir buscar….

– E não tem ideia onde o poderá ter perdido?

– É esse o outro problema. É que não faço ideia…- menti

– Que tal rever o que fez e por onde andou nas ultimas 24 horas, por exemplo?

(Sofia entrava no jogo e queria saber, também, até que ponto eu dizia toda a verdade)

– Há coisas que eu recordo mas não vou contar a uma desconhecida…

-Desconhecida eu ? Ora deixe-me rir….Aposto que ontem, a esta hora, você me conhecia e bem…quase diria por dentro e por fora…..

( Agora não podia fingir mais…fiz uma pausa e disse…)

-Sofia?

– Isso quer dizer que desde ontem a esta hora não esteve com mais ninguém….e isso agrada-me!

– Sofia….deixei o meu telemóvel em sua casa?

– Respondo com outra pergunta: sua secretária não lhe deu nenhum recado?

– Não…ainda hoje não a vi…- tornei a mentir.

– Então quando a vir ela tem um recado para si… e a propósito, ^tu não tens nenhum para mim?

– Como havia de ter?

-Por acaso não levaste o meu telemóvel, por engano, em vez do meu?

– Sim, talvez…mas está no carro. Quando lhe peguei esta manhã vi logo que não era o meu…

– Pois foi…saíste muito á pressa…quase que nem te despedias de mim, como devia ser….

– Talvez, peço desculpa…mas o trabalho chamava… ainda estás aí no Algarve?

– Não querido…estou a caminho de Lisboa, onde estarei dentro de 2 horas. Queres ir almoçar comigo?

Aquele “querido” era uma faca a querer espetar-se nas minhas costas. Mas aceitei o convite e marcámos uma hora para o encontro. Local: não evitei que fosse em casa dela…

O resto da manhã não rendeu o que deveria ter rendido. A par da embrulhada da situação, havia ainda a recordação de tudo quanto se passara naquele fim-de-semana. Tinha sido muito bom sob um aspecto e muito mau por outro. Em que situação eu me haveria de me meter ou eu deixara meter-me…Com as ideias completamente embaraçadas, tentei adiantar um pouco o que deixara para traz e deixar o tempo e as circunstâncias acontecerem.

Esqueci Marlene, a eficiente secretária e eterna candidata a horas extra na minha cama e á hora combinada lá fui ao encontro de Sofia. Propositadamente cheguei um pouco atrasado, mas ela sabia mais do que eu pensava. Abriu a porta e vestia apenas um robe muito leve que deixava antever o seu esbelto corpo. Colou de imediato os seus lábios aos meus e desta vez não foram só os lábios: todo o seu corpo se uniu ao meu num convite irrecusável. Se um homem não é de pau, então eu sou homem de verdade…

Capítulo 12

Continuado por: Ricardo Costa

Acordei.

Calmo e com um sorriso nos lábios e na alma… por breves instantes senti-me feliz. E longe iam os tempos em que sentia esta leveza, esta serenidade ao acordar ao lado de uma mulher.

Toda a historia de Maria, deixou marcas, que teimavam em não passar. O sentimento vertiginoso de perda, de solidão, desespero,…

Perder os meus pais foi horrível. Mas tinha-o aceitado como um marco, e com toda a força da juventude, consegui usar, sim, era a palavra certa, usar a dor como uma espécie de combustível. Tinha toda uma vida pela frente e se algo havia herdado deles, era essa forma forte e positiva de seguir em frente, dia após dia.

Perder a Maria foi mais penoso. O que tirar daquela traição e desilusão, que pudesse de alguma forma ser positiva? Apenas dor e magoa. Mulheres, melhor é serem mesmo descartáveis… não o sentia assim na verdade, mas tentava, e até se ia safando…

E agora? Sofia. Os gregos é que a sabiam toda, riu-se para o travesseiro… sophia – sabedoria. Teria de manter algum sentido de humor no meio desta confusão.

Levantou-se.

A noite ameaçava morrer, e a luz frágil de um novo dia dava por acabada uma noite de prazer, forte e intenso sim, mas cada vez mais lúcido.

Tenho de pensar nisto bem mais friamente. Posso lá agir como um puto? Se calhar devia. Pior é que não me sinto capaz de levar com outra “Maria”, e neste caso a troca até já faz parte do “pack”.

Troca. Era isso. Troca.

Ela era casada, isso tudo bem. Acontece. Tinha-o visto vezes sem conta nos primeiros anos da sua profissão. Divórcios, conheço-os bem. Mas raios homem! Aqui ela quer trocar a tua alma por uma clausula num qualquer testamento! Sentia a cabeça explodir.

Não queria, mas… tem de ser. Acho que mereço. Pegou num cigarro e acendeu-o. Estava então sentado no chão da varanda, saboreando o primeiro cigarro em anos.

Tinha sempre um maço no casaco. Tinha deixado o habito. Tinha-se ido com Maria… todo o ritual de fumar lembrava-o demais a sua presença.

Prazeres como este são mortais. E estúpidos, mas são nossos.

Sofia. Pela primeira vez sentiu-se usado. Andava nas nuvens com a sua beleza, com o seu cheiro, com o seu toque, com a esperança, sim, porque não? Também quero ser amado! Mereço! Não tenho é feito muito para que isso aconteça…

Ela estava simplesmente a tentar “facturar” à sua custa. E pior ainda, com o consentimento de Gabriel. O tipo continua a só ver números. E eu vou acabar a ver navios…

– Mário ? Que fazes aqui? Que frio! Estou a preparar um belo pequeno almoço, anda, dá-me a tua mão…

Continua…

Capítulo 13

Continuado por: Orlando Dias Agudo

Foto:© Ricardo Costa

Foi outra cedência. Sem pensar no que o gesto poderia significar, estendi a mão e Sofia ajudou-me a levantar. O pequeno-almoço estava realmente delicioso, mas enquanto o saboreava e dizia frases soltas de circunstância, a minha mente começava finalmente a analisar a situação. Até ali, eu tinha cedido sempre. Em todas as circunstâncias. Sofia ainda não me tinha ouvido pronunciar a palavra “não”. Sempre obtivera o “sim” e, na ausência da palavra, tinha tido o gesto. O que começava a irritar-me…

Quando o pequeno-almoço terminou e sem que desse a notar alguma impaciência, levantei-me e falei para Sofia:

– Tenho de me ir arranjar porque tenho de ir ao escritório…

– Já? Não é ainda cedo? – Perguntou Sofia – Olhe que o dia é grande…

-Pois é…mas nem imaginas como está grande a pilha de papeis que tenho na secretária.

– É pena…tinha uma sugestão para te apresentar….

– Pois hoje não poderei aproveitar…

– Dizes-me que não?

– Hoje tem de ser…

– É a primeira vez que me dizes que não…

Sinal de que Sofia também estava atenta. Até ali, eu tinha sido o cachorrinho que tinha feito todas as vontades á dona. Só que, desta vez, o cachorrinho tinha tido a coragem de dizer “não”.

Preparei-me para sair. Já devidamente equipado chamei por Sofia pois não queria sair sem me despedir. Ouvi a sua resposta vinda do quarto onde dormíramos…e não só. Não me pediu um minuto. Apenas disse para ir ter com ela…

Fui. Quando abri a porta, nem queria acreditar no que via: Sofia estava embrulhada numa toalha de banho, ainda molhada e passeando um pente pelo cabelo. Seus lábios afivelavam um sorriso já conhecido e maliciosamente perguntou-me:

– Não queres vir limpar as costas?

– Tenho de ir…tenho imenso trabalho para fazer…

-Acredito…mas limpar-me as costas não demora muito tempo…

– Se fosse só limpar as costas …

– É só isso que peço…

– Pois….mas sabes que eu não posso ver “rebuçados” desses…

– Estás a chamar-me rebuçado?

– Estou….e bastante doce…

– Então pousa a pasta, tira o casaco e limpa-ma as costas…

Não disse “sim” mas o gesto falou por mim. A toalha era felpuda, macia, tanto ou quase como a sua pele. Coloquei-me atrás dela e cumpri a preceito a tarefa solicitada. Mesmo que não quisesse a verdade é que o cheiro da sua pele ou do gel que usava me toldavam o raciocínio. Os cabelos molhados batiam-me na cara sempre que ela atirava propositadamente a cabeça para trás. Num repente, deixei cair a toalha e Sofia ficou abandonada nos meus braços. Beijei-lhe o pescoço, ouvi o seu esgar de prazer e de seguida moldei-lhe os seios com as palmas da minha mão. Ela virou-se, colou seus lábios aos meus, explorou com a língua toda a minha boca e com voz rouca pediu-me:

– Vem para a cama…

Embora contra vontade respondi-lhe que não…

Continua…

Capítulo 14

Continuado por: Marta Luís

Já ia ficando esquecido, mas, fui a tempo de agarrar o telemóvel, na cabeceira da mesinha de apoio. Certifiquei-me de que era o meu, igual ao dela, ali mesmo ao lado e, fugi porta fora… Fugi de Sofia, mas não sem um sorriso já de saudade, ao vê-la assim, amuada, qual menina mimada desiludida.

Fora mais uma mão cheia de sexo, puro e fantástico, mas também mais uma vez, aquela mulher insaciável, esgueirava-se-me por entre os dedos, como areia, e continuava sem saber o que fazer com ela… para além desse doce exercício de prazer, que me enlouquecia, e me prendia como nunca quisera antes ficar preso.

Outra vez me senti como que um dom roberto, qual marioneta, a abandonar o jogo a perder, e sem decifrar qual a próxima jogada.

– Ligas-me mais tarde? …Perguntou ela com uma expressão mais triste e com a sua cabeça de cabelos soltos e ainda molhados, enfiada na fresta aberta da porta, para onde se arrastou em bicos de pés, para se despedir de mim.

– Talvez…respondi enquanto acenei e desci.

Já no meu carro, volto a levar as mãos à cabeça, e a magicar, como tudo está a acontecer-me tão sem lógica, tão de repente, tão sem rédeas para me segurar… Solto um suspiro sem perceber; porquê eu, nesta história?…quem sou afinal eu, nesta história? Ou…como sair desta história…?!

A esta altura, por mais homem ou macho latino que seja, começo a quebrar, e a achar que, vou acabar é por sair magoado, de tudo isto… Não nego a vontade que tenho de ficar com Sofia, mas ainda não entendi, o que quer esta deusa de mim, para além do trato que, com o seu marido, me propôs.

Esse, não dissera quando ia voltar…mas eu sabia que era agora, neste final de semana que discretamente se fazia anunciar…afinal o tempo corre, assim como eu corro neste momento, para o escritório. Nada preparado para o que ali me aguarda. Esta semana, é para esquecer no trabalho, mas, certamente será uma semana inesquecível, neste tórrido capítulo que agora se escreve, da minha vida.

Como deslavado da memória, tenho a sensação que liguei o piloto automático, e levei todo o caminho emaranhado entre cenas que envolvem agora três mulheres, que perpetuamente me aparecem, como um puzzle incompleto… Maria, Marlene e a Sofia… rodam à vez, como um desafio à minha frente, e dou comigo a compará-las entre si, e a tentar encontrar um elo que as una a mim, ou a esta minha manhã que se adivinha muito pouco produtiva, tal é a confusão que se instala no meu pensamento.

Neste momento, se alguém me desse uma das duas hipóteses, eu acreditava em ambas; estou a ficar louco, ou então, apaixonado.

Estacionei e acenei ao Sr. João, que mais uma vez, me olha de esgueira, como quem não reconhece o Mário de antes, o Dr., e como quem me analisa, com o olhar critico de alguém que já ouviu alguma coisa, que censurou.

Sinto-me apontado e, nem sei se devo ou não sentir-me culpado… Eu, a responsabilidade em pessoa, estava a falhar, para aqueles que sem saberem, eram as bitolas mais significativas da minha conduta. O porteiro, a senhora da limpeza, o estafeta…aqueles que, sem nunca pedirem um favor em troca, sempre foram antes simpáticos comigo, e com essa atitude me faziam acordar todas as manhãs de consciência tranquila, eram os mesmos que hoje, me faziam baixar os olhos ao passar.

Estou demasiado tocado pelo pecado, pela certeza de que estou a trair alguém, e isso, é que me deixa nervoso, e sem que me permita ripostar ou resistir, esta aventura está a avançar para um campo que me assusta… E, o meu maior temor prende-se com a certeza de que me estou a enganar, antes de mais a mim próprio.

A porta do elevador abre, e eu prometo a mim próprio, que ao fim do dia, tenho que ter as ideias arrumadas, e que o amanhã, já será muito diferente.

Estou pronto para o dia D, o dia em que tudo vai mudar, pois não vou fazer mais nada, se não fechar-me no escritório e, decidir, o que vou fazer comigo e com Sofia.

Assim que número do andar aparece, e a porta volta a abrir, o meu dedo cola-se ao botão para o voltar a premir: No átrio vejo uma silhueta, que de todo não tinha marcado a hora. O Gabriel, estava ali, debruçado na secretária da Marlene.

(continua)

Capítulo 15

Continuado por: Orlando Dias Agudo

Se não tivesse assistido, nos últimos dias, a episódios nunca antes imagináveis, diria que tinha sido apanhado de surpresa. Mas, nesta altura do campeonato, confesso que já nada me causava surpresa. Gabriel conhecia a Marlene, fiquei a saber; e não era de hoje nem de ontem a avaliar pela posição em que foram apanhados. Isso também explicava muita coisa. Marlene era a minha secretária, sabia da minha agenda, quando estava ou saia e para onde, enfim o elo de ligação perfeito para o “inimigo” saber onde me encontrar. Só não consegui entender, á primeira, a quase cena de ciúmes de que deu mostras, quando regressei um dia mais tarde de um fim de semana…e trazia o telemóvel trocado. Mas enfim…haveria de descobrir um dia.

Quando parei em frente de Gabriel e de Marlene, procurei não mostrar a surpresa que tinha acabado de ter…

– Bom dia, Marlene – saudei

-Bom dia, senhor doutor – respondeu…acrescentando – não sei se conhece este meu amigo, o Dr. Gabriel Saldanha, que lhe queria dar uma palavrinha…

-Pois não…O Gabriel foi meu colega de liceu….Queres entrar?

Confesso que notei um certo embaraço no seu comportamento. De certeza ele não estava ali para me dar uma palavrinha, mas antes para tirar nabos da púcara da Marlene..ou outra coisa qualquer..Meio embaraçado, apenas me disse:

– Não é coisa de importante…e se calhar nem tens tempo disponível agora…

Não o quis atrapalhar mais. Disse-lhe que naquele momento não o poderia atender como merecia, mas se esperasse uma hora talvez pudéssemos conversar. Optou por ir embora, prometendo voltar..mas com hora marcada. Sinal evidente que não era a mim que ele queria…

Quando saiu, eu fui para o meu gabinete e chamei Marlene…

– Menina Marlene, vamos jogar limpo um com o outro…O dr. Gabriel queria falar comigo ou consigo?

Visivelmente perturbada e levemente roborizada, respondeu:

– Era comigo, senhor doutor…

-Então para quê essa desculpa esfarrapada? Quer falar verdade ou vamos terminar aqui e agora a nossa relação profissional?

– Eu conto tudo, senhor doutor…

E contou. Que o Gabriel tinha sido seu namorado e que nos últimos tempos a havia procurado para saber coisas a meu respeito. Confessando a sua fraqueza de mulher, ainda por cima sem namorado, caiu na armadilha dele e, numa noite contou-lhe tudo o que sabia a meu respeito. Revelou-lhe a minha agenda, onde costumava ir, a história da minha separação, enfim…quase as minhas memórias em troca de uma noite de amor…

Quando terminou estava lavada em lágrimas e –talvez – arrependida de ter revelado tudo o que sabia da minha vida profissional e pessoal. Claro que pensei imediatamente em despedi-la, mas de repente vi nela uma arma a meu favor. E joguei com ela…

– Marlene: o que você fez foi muito mau. Deveria despedi-la imediatamente e com justa causa mas não o vou fazer, se me prometer cumprir com o que vou pedir.

-Faço tudo senhor doutor….

-Pois bem. Vai encontrar-se com o dr. Gabriel, vai dormir com ele as noites que quiser ou forem necessárias, mas eu quero saber tudo sobre a sua vida sentimental. Como se dá com a mulher, se é feliz, se ele sabe se ela o engana…quero um relatório completo, ou os seus dias estão contados neste escritório. Acha que consegue?

– Vou fazer os possíveis senhor doutor e acredite que vai ser com algum sacrifício…

-Sacrifício?

– Sim, senhor doutor: é que passar uma noite com ele não é lá muito apetecível…

-Má cama?

-É. Má cama mas óptima dormida…Logo que alivia…adormece!

Capítulo 16

Por Ricardo Carvalho

O dia corria devagar.

Incrível como o tempo pode ser o nosso pior inimigo.

A conversa com Marlene não se sai da cabeça. Como a solidão nos conduz a situações como a que ela se encontra… existe realmente algo de muito errado na forma como escolhemos deixar a vida acontecer.

Sempre olhei para ela como apenas mais uma figurante no meu dia a dia. Não podia evitar sentir-me pessimamente com toda a situação. Tinha notado, claro, os seus discretos “avanços”, mas trabalho é trabalho. E por alguma razão, sentia estar a passar ao lado de algo. Se calhar controlo-me demais. Complicado isto de um gajo ter princípios.

Mas ela portou-se pessimamente. Abusou da confiança e posição que usufruía e isso não podia ter outro fim que a obvia ruptura profissional, mal seja possível.

Raios! Que estou eu a fazer?! A obrigar alguém a “dar-se” em troca de quê?! Isto tudo está realmente fora de controle…

Tinha de falar com Sofia.

Enquanto pegava no telemóvel, sentia o coração bater mais forte, as mãos suadas meias a tremer…

Raios! Estava vulnerável, era essa a verdade.

Apesar de toda a sujidade em redor, pensar em Sofia mexia com ele. Um dia jurou nunca mais se envolver desta forma. E tinha caído numa armadilha daquelas.

Como podia ele fazer outra coisa? Tinha de se afastar dela antes de chegar ao abismo que se adivinhava bem perto.

Resolvi sair dali. As paredes começavam a fechar-se sobre mim e nada melhor que uns quilómetros de estrada para desanuviar. Engraçado. Tudo aquilo tinha começado exactamente lá, numa qualquer estrada…

-Marlene, pode chegar aqui um momento? Vou sair e preciso de lhe falar.

-Sim claro.

Ela entrou meio a medo e claramente toda a sua postura tinha sofrido uma mutação. Nada mais seria como antes e naquele instante sentiu um aperto no peito.

As palavras não saiam. A verdade é que não sabia como lhe falar agora que ela era mais uma peça na confusão que se tinha tornado a sua vida.

-Sabe, tenho a maior estima por si. Ou tinha. Mas não se pode voltar atrás. Muitas vezes bem queremos, e talvez… bom, o que eu quero dizer é o seguinte: a nossa relação profissional chegou ao fim. Não posso trabalhar com alguém que não confio, ou pior, alguém que fez o que a Marlene fez.

-Mas doutor…

-Espere, vai poder falar claro. Mas já decidi. O que lhe estava a impor é terrível, pior até do que a menina fez. Não posso nem devo. Peço desculpa, foi no ímpeto do momento. Agora, entende que não posso confiar em si. Procure um bom emprego, dou-lhe tempo e óptimas referencias. Mas não posso continuar. Preciso de alguém de confiança, como sabe. Olhe, de alguém como julgava que a menina Marlene fosse! Enfim, não terá dificuldades tenho a certeza.

-Mas…- suspirou, olhos no chão – eu entendo claro. Mas saiba que ia contar-lhe tudo, mas não conseguia. Lamento imenso doutor.

-Pois eu também. Adiante. Olhe, prepare você mesmo as suas referencias, eu assinho. Agora vou sair. Não me ligue. Quero o resto do dia para mim. Amanhã estou cá bem cedo. Alguma duvida menina Marlene?

-Não senhor doutor. E… obrigado. Mal tenha a minha situação resolvida dir-lhe-ei.

Desatei estrada fora ao som de “She”. O Costello sabe do que fala. Pena não ter encontrado alguém que lhe despertasse aquele amor de que ele fala…

Aquilo com a Sofia era pura estupidez! Sem nexo. Tenho de pensar bem nisto.

Estava a ser um parvo, um objecto. Sexo?? Não seria apenas isso?

Confusão.

E a historia do testamento, etc, tudo muito estranho. Algo estava muito errado.

Mas que…? O telemóvel? Escritório! Arre!

-Sim. Que se passa? Não disse que…

-Desculpe doutor mas é que recebi uma chamada do… não sei se devo…

-Fale mulher! Que raios!

-Do Gabriel. Ele quer falar comigo. E estava irritado. Perguntou-me o que se tinha passado hoje de manhã, e eu não sabia o que dizer e…

-Sim, já esperava. E que lhe disse afinal?

-Nada. Apenas que não sabia se podia sair hoje. Depois achei melhor contar ao senhor doutor. Desculpe tudo isto, eu…

-Calma. A menina é mais uma vitima. Olhe, eu trato dele. Ligue-lhe e marque um encontro no seu apartamento. Eu passo já aí no escritório. Hoje vai ficar na minha casa, pode ser? Esse tipo tem de me ouvir.

-Claro doutor. Como quiser.

Capítulo 17

Por Orlando Dias Agudo

Não estava a raciocinar como devia. Tinha exagerado na conversa que tinha tido com Marlene, tinha exagerado no pedido que lhe havia feito, tinh Não estava a raciocinar como devia. Tinha exagerado na conversa que tinha tido com Marlene, tinha exagerado no pedido que lhe havia feito, tinha a exagerado ao pedir-lhe para ficar essa noite em minha casa. Em resumo: a minha vida, naquele dia era simplesmente um exagero. Era preciso acalmar, parar uns minutos para pensar e depois, mas só depois, actuar com racionalidade. Rumei até á beira-mar. Ainda bem que isso era possível numa cidade que era uma balbúrdia de trânsito. Quando parei o carro, desliguei o motor e perdi o olhar nas ondas que lambiam o areal. E pensei. Em tudo e mais alguma coisa…na Sofia e nos momentos de prazer que me proporcionou, no marido Gabriel que era a confusão em pessoa e também na Marlene. Essa Marlene que eu julgava conhecer bem mas que afinal era completamente desconhecida. Nos pensamentos não deixei de fora as tentativas que ela havia feito para me conhecer melhor fora do escritório e das artimanhas que havia inventado para não perceber esses seus avanços. Mas agora era tempo de resolver a embrulhada em que me havia metido.

Com as ideias já mais claras voltei para o escritório. Marlene ainda lá estava.

– Marlene, vamos conversar ?- propus quando entrei

– Sim…quando e onde quiser…

-Pode ser aqui tranquilamente no meu gabinete…

E dirigimo-nos para esse cantinho tranquilo que tinha a cidade como pano de fundo. Convidei-a a sentar-se e ela não se fez rogada. Cruzou a perna deixando antever um pouco da sua coxa que, reparava agora, até era muito bem feita…

– Marlene, há pouco exagerei um pouco. Disse coisas que não deveria dizer e portanto peço-lhe que esqueça tudo…

-Tudo mesmo?

-Sim…tudo, principalmente o ter de deixar de trabalhar aqui comigo.

(senti um leve sorriso na sua face…)

– Muito bem…e quanto ao que me havia pedido sobre o Gabriel?

– Mantenho o pedido mas o que lhe fiz anteriormente: ou seja, tentar arrancar-lhe tudo quanto sabe sobre a minha relação com Sofia.

-E isso obriga-me a dormir com ele?

-Não obriga nada; digamos que poderá chegar a esse ponto…se você o quizer…

– Essa parte é que não me agrada nada…sabe o Gabriel não faz o meu género…

– Então, se estiver de acordo, vai telefonar-lhe, marca um encontro com ele onde quiser, tenta saber o que eu quero e depois…depois falamos. De acordo?

– Sim…vou telefonar-lhe agora pois ele está esperando…

Marlene saiu do gabinete, foi telefonar e depois veio dizer-me que se iria encontrar com Gabriel nesse fim de tarde. Depois, quando tivesse terminado telefonar-me-ia a dar novidades.

Parecia mais aliviado. Tinha reparado uma injustiça e podia continuar a contar com o seu profissionalismo. Saí do escritório, fui jantar a um restaurante conhecido e ainda não eram 10 horas da noite quando fui para casa.

Tinha vestido já o pijama para ir dormir quando o telemóvel tocou…

-Sim…

-Sou eu Marlene…

– Já conversou com Gabriel?

-Sim…já tenho novidades para si…

-Óptimo…amanhã falamos?

-Não poderá ser ainda hoje? Tinha dito que esta noite ficava em sua casa…

-Marlene…eu já estou de pijama…

-E eu tenho o meu na malinha de mão…quer?

De repente passou-me pela cabeça a sua figura: alta, esbelta, com as curvas onde deviam estar, lábios carnudos que eram convite para outras aventuras…Depois de um minuto em silêncio, apenas disse:

-Venha…estarei á sua espera…

Caro leitor, agora é a sua vez de dar continuidade a este conto.


Aceita este desafio ? Então, envie-nos o seu texto para: ordapt@yahoo.es

continuação em http://cemhora.blogspot.com

Comentários
  1. Anonymous diz:

    tasse mesmo a ver, que o Mário vai voltar para trás a qualquer pretexto e… pimba!!! 😉

  2. Anonymous diz:

    Esta estória, vai ter um final como em quase todos os contos;
    “casaram e tiveram muitos meninos, loirinhos e de olhos azuis”

    Aposto que será mais ou menos isso…

    F. Cunha – Olivais

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