António Variações “produz” mais que nunca

Posted: 15 Junho, 2006 in Amares, Caldelas, entrevista, Minho, Social

Vinte e dois anos após a morte, continua a surpreender… mais discos, um filme e um livro

Manuel Araújo (*)

António Joaquim Rodrigues Ribeiro nasceu em Fiscal, Amares, no dia 3 de Dezembro de 1944. Morreu no dia de Santo António, 13 de Junho de 1984. Foi a primeira personalidade pública que, supostamente, morreu de SIDA em Portugal. Era filho de Deolinda de Jesus e de Jaime Ribeiro.Passaram já 22 anos após o seu desaparecimento e ainda hoje continua a surpreender. São descobertos novos manuscritos inéditos e maquetas. Novos Cd’s e um livro foram já publicados. Até um filme. António Variações – um filho das terras de Amares – reaparece no século XXI em força, de tal forma que há já quem pergunte de onde aparece agora tantos feitos.

A editora “Emi” afirma que “este vai ser o ano de Variações”. Depois do enorme sucesso dos Humanos, 2006 começa com a edição de um duplo CD que é um misto de banda sonora de um filme que nunca chegou a estrear, a integral da obra de um artista único (que junta os álbuns editados, as maquetas entretanto descobertas e ainda vários temas inéditos) e de álbum conceptual como nunca foi feito em Portugal.

Em breve, segue-se o livro, pouco depois o filme. “Entre Braga e Nova Iorque” é a derradeira, justa e necessária homenagem que faltava a este “folclorista puxado para o rock” que “gostava de ficar na história, nem que seja na história de uma parede de casa de banho”.

“António Variações – Entre Braga e Nova lorque” é o nome do CD duplo recentemente editado, que reúne a obra completa do músico e é também o nome do Livro da biografia de Variações, da jornalista Manuela Gonzaga.

António Manuel Ribeiro, dos UHF, privou como poucos com António Variações, mas recusa-se a alongar muito os comentários sobre as novas descobertas em torno do artista de Fiscal.

“Numa canção que gravei em 93 escrevi:

“ O bom poeta

é um homem morto

tudo lhe presta

e dói-lhe pouco”.

E podia ficar por aqui. Mas acrescento: todos os dias em todo o mundo se procuram soluções para vender discos. Portugal não foge á regra. Sobre o António pouco me apetece dizer. Estive lá, estive com ele, lançámo-lo, defendi-o, bebemos copos na noite de Lisboa. O que fazem agora da sua obra secundária e da sua imagem não comento. Mal vai um pais, que exuma os seus mortos para se sentir vivo”, desabafou o vocalista dos UHF, num tom enigmático e irónico.

De qualquer forma, a senda de Variações parece ter pernas para andar…

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O início

Contou-nos a mãe, Deolinda de Jesus, que durante os estudos primários, concluídos na escola local, ajudava nos trabalhos da terra, mas sempre que podia “escapulia-se” para todo o sítio onde houvesse uma feira, romaria ou festa. O “bichinho” da música herdara-o de seu pai que também tocou acordeão e cavaquinho.

O “Tonito” – era assim que lhe chamava a mãe – depois de terminar a escola primária, experimentou ainda um emprego na oficina de quinquilharias do “Caco” em Caldelas, desistindo pouco tempo depois. Sonhava com outros horizontes, assim, e apenas com 12 anos, rumou em direcção a Lisboa para casa dos primos. Começou a trabalhar como marçano, que não era o que desejava e alguns meses mais tarde conseguiu um trabalho num escritório. Na idade da tropa foi destacado para Angola. Cumpriu o serviço militar e logo depois partiu para Londres, onde tinha um irmão, o José. Começou a trabalhar como empregado de mesa.

Nasce o António Variações

Em 1976, quando faleceu o seu pai, regressou a Portugal, mas partiu de novo, mas desta vez para Amesterdão, Holanda, onde frequentou durante um ano um curso de cabeleireiro. Voltou a Lisboa para começar a exercer a sua nova profissão. Durante o dia trabalhava num salão de cabeleireiro e ã noite, juntamente com o grupo musical “Variações”, dedicava-se à sua paixão de sempre a música. O nome “António Variações”, provém do grupo com quem começou a cantar.

A Moda

O António era diferente, “estava-se nas tintas” para a moda, – a moda toma as pessoas todas iguais dizia ele. Tinha um gosto muito peculiar de se vestir, que alguns classificaram de sofisticado, excêntrico, extravagante e outros de ridículo, mas o António foi persistente, seguiu o seu próprio caminho e venceu, até que começou a ser imitado, hoje, qualquer um usa brincos e veste como ele vestia…

O estrelato

A sua primeira aparição em público, foi na feira popular de Lisboa, num programa da Rádio Renascença, com os UHF de Manuel António Ribeiro e que por sinal não foi nada promissora. O público “escandalizado” reagiu violentamente e foi o próprio AMR, que teve de o defender, da investida de objectos que eram arremessados para o palco…

Em 1978 assinou um contrato com a editora Valentim de Carvalho, mas só quatro anos mais tarde é que gravou o seu primeiro trabalho, “Povo que lavas no rio”, um tema bem conhecido de Pedro Homem de Meio e imortalizado pela saudosa Amália . “Estou Além”, é um outro tema da sua autoria. No ano seguinte, editou “Anjo da Guarda”, que o catapultou definitivamente para o estrelato nacional.

Foi entregue à família, a titulo póstumo, um “disco de platina” referente ao trabalho” O melhor de António Variações”, resultado da venda de mais de 40 mil exemplares, o qual nos foi orgulhosamente exibido pelo irmão Carolino.

No final de 2000, foi reeditado um novo CD. “Dar & Receber” com um tema inédito do António Variações, pensando-se ter esgotado assim, o seu legado vocal…

A família e os amigos

O António visitava regularmente a mãe e os amigos em Fiscal, a família era tudo. Não havia entrevista alguma que ele não falasse da mãe, dos irmãos e das irmãs. O António era o 5° filho, dos dez que a Deolinda de Jesus teve. Na sua terra natal, era sem vaidade nem vedetismo que se misturava com os amigos e conhecidos, que alguns o recordam hoje com imenso orgulho e saudade.

O trabalho, a doença e o fim

Apareceu em inúmeros programas de Televisão e da Rádio, mas foi no programa “A festa continua” do Júlio Isidro – do qual era também amigo e cliente da barbearia – que apareceu na TV pela última vez. Semanas mais tarde, o António foi internado no hospital Curry Cabral, com complicações que se agravaram vertiginosamente; “Broncopneumonia Bilateral Extensa”, foi a doença que lhe foi diagnosticada e viria a falecer na madrugada do dia de Santo António, 13 de Junho de 1984. Tinha 39 anos e foi a primeira personalidade pública, que supostamente morreu de SIDA em Portugal.

No velório, na Basílica da Estrela em Lisboa, foram muitos que lhe quiseram prestar a última homenagem e o último adeus. Estiveram presentes, além de outros, os “Heróis do Mar”, a Lena d’Água, a Maria da Fé e a sua grande amiga Amália Rodrigues, que com ele chegou a actuarem 1983 na Aula Magna da Universidade de Lisboa e tinha pelo António um carinho muito especial.

O corpo do António, está sepultado em Fiscal, Amares, sua terra natal, onde hoje continua a ser visitado por gente anónima, oriunda um pouco de todo o país.

O reconhecimento póstumo

Em Amares, existe uma rua com o seu nome. A Assembleia Municipal em deliberação camarária, por proposta da deputada Raquel Mendes e por unanimidade, deliberou homenagear o António Variações.

Foram levadas a efeito várias iniciativas, tais como festas populares, exposições, palestras, uma homenagem solene nos Paços do Concelho e para perpetuar o artista, foi mandada erigir em Fiscal, uma estátua em bronze com a sua efígie.

(*) in: Terras do Homem/Manuel Araújo

Comentários
  1. A. S. Pereira diz:

    Já pensaram se tivessem hoje, de erguer estatuas a todos os panascas que existem e que cantam, alguns melhores que o Variações?

    Ainda não se lembraram: metam-no no Panteão Nacional… afinal era amigo da Amália e ela está lá.

    Parem, deixem o morto em paz.

  2. Manuel Araújo diz:

    Caro Pereira, fosse o Variações, “panasca” ou não, a sua orientação sexual, religiosa, política, ou outra, é apenas do foro pessoal de cada um e ao fazê-lo, está-se a cometer um acto discriminatório, punido por Lei.

    Quanto ao resto da sua crítica, a opinião é livre e abstenho-me de comentar.

    Apenas peço moderação nas afirmações e se evite o insulto.

    Manuel Araújo

  3. Anonymous diz:

    a critica nasce da inveja , mas compreendo alguma gente…afinal Jesus tambem foi morto por ser o mais inteligente…

  4. Moreira diz:

    Antonio Variaçoes sempre provocou em muita gente vontade de criticar…por isso nao me admiro do k dizem.foi talvez o unico que ocupou a sua curta vida pra dar alguma alegria a si mesmo vendo a alegria que provocava nos outros!! por outro lado a ignorancia e a inveja estava sempre ao à espreita porque Ele era um homem fantastico capaz de fazer o que outros nao tinham inteligencia para tal….

  5. pedro diz:

    Variações foi um dos melhores artistas Portugueses no pouco tempo de carreira que teve deixou um legado para o futuro. Ainda hoje é inspiração a varios grupos Portugueses

  6. carlos diz:

    Sem dúvida ele estava muito à frente no seu tempo.
    Ele irá viver enquanto alguém nalguma parte do mundo deparar-se com a sua imagem ou a sua obra musical pois ele não passa despercebido a ninguém.
    Cada vez que oiço as suas músicas “mergulho de cabeça” num mundo de cores e emoções…
    Ele foi uma estrela cadente que passou pelo mundo para nos ensinar a seguir e a lutar pelos nossos sonhos, não termos medo de ir para o desconhecido mas acima de tudo para nos recordar da efemeridade da vida.

    Como dizia o nosso caro vinicius de morais “a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida”. O António encontrou-se com a vida, e as suas músicas convidam a quem as ouve a encontrar-se também….

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