Por Pedro Barroso

 

É A ÉPOCA do corpo bem feito.
Há muito que a fisicidade desceu à cidade e à sociedade, mas é sobretudo na estação da nudez maior que o pânico nos invade pelo estranho e perverso impacto que o invólucro de nossas descuidadas pessoas pode provocar.
Sabemos que se trata apenas do pacote que nos limita, nada mais que pele, olhos, cabelo, expressão, mas todos sabemos que é sempre esse visual que de nós emana que se constitui no halo determinante, a imagem ingrata que os outros de nós fixam e comentam.
É sabido que sou gordo.Curiosamente, além de atleta, fui já, até – em tempos de outra existência e função – entendida autoridade na anatomia, exercitação geral, fisiologia do esforço, combustão celular, esforço aeróbico e anaeróbico, técnicas de controlo psicossomático, esquemas de trabalho, musculação geral e focalizada, velocidade e resistência, treino desportivo especializado, modalidades várias, técnicas e tácticas vencedoras.
Hoje sou simplesmente gordo.
Obeso como se diz eufemista e educadamente.
Não gosto, mas paciência.
Porém tergiverso, como de costume. Uma lástima.
Como é óbvio, não aceito conselhos, nem criticas sobre excessos passados. Não discuto agora nem dietas, nem êxitos de sedução, nem míticos conceitos de corpo ideal.
Vivi demasiado para o momento, fruto da época vivida e convivida, desatento e selvagem. O que sou hoje é o fruto de excessos sem nome, genética, de generosidade e libações várias.
Coisas do corpo e da alma. Coisas da liberdade. Coisas.
Pago agora a factura externa e compreendo – por isso e por tudo o anteriormente exposto – todos os lados da peripécia dramática que se torna a busca do corpo perfeito para a época certa.

– Achas que estou bem? Posso ir assim? Não me fica melhor este? – Perguntas da estação.

– Ainda não estou pronta! Nem penses que eu vou vestir isso! Topless?! – Exclamações normais.

– Estas calças já não me servem. O fato do ano passado encolheu. Estou careca. – Constatações simples…

E é ver as famílias, reunidas num qualquer pacote de Verão, usando bermudas descaídas, barrigas descaídas, peitos descaídos, costumes descaídos, até crianças descaídas.
Não me apetece aprofundar o assunto muito mais.
De facto é matéria ligeira, fruta da estação.
Não dá para discorrer demais, nem para fazer figura na Science and Health Magazine.
Mas sempre constato que a relação humana se tornou baseada nos factores físicos da atracção e nas medidas generosas ou moderadas, conformes aos locais e sítios físicos onde supostamente devem ser. Se é suposto ser gordo no Hawai e magro na Europa; se é suposto ter o peito opulento e o nariz discreto; se é suposto gostar do outro pela sua altura ou pela cor dos olhos; se o aumento ou diminuição artificial de seios ou outras zonas a gosto é que conduz à felicidade; se é suposto que a marca das sandálias determina a elegância e o charme; se a marca de tudo em geral o que se veste é que nos faz ou não gostar de alguém, nesse caso ninguém fica prejudicado no jogo das vaidades. Se forem esses os valores, não há que reclamar depois dos resultados.
E não tenhamos ilusões. Somos todos influenciáveis. Todos invejamos o perfil ideal.
De facto, todos aspiramos à tal espantosa e inalcançável perfeição.
Somos todos diferentes, mas todos iguais.
Todos vãos e frívolos quando chega a altura.
Contudo – aos alguns de nós que há muito desistimos já de tão nobre e remota busca – resta uma felicidade; uma vingança; uma verificação inexorável:

– Um dia todos esses corpos esplêndidos e perfeitos terão varizes e rugas. Papos e tornozelos inchados. Todos eles um dia ficarão de cera e cabelo grisalho. Usarão bengala. Dentadura. Eventualmente fralda.
Nessa altura, todos os que basearam a sua atracção nos factores externos de atracção, há muito terão percebido o erro em que viveram.
E apenas aquela suave e bonita memória de uma mão na nossa, uma mão que reconhecemos num segundo de cor, terá significado. E ficaremos falando e amando para lá de nós, da beleza e do tempo. Para lá da injustiça prematura do envelhecer. E saberemos sorrir de nossas memórias e peripécias. De Verões e Invernos passados e vividos em amor e aconchego. E seremos lindos, creio.
Importante mesmo é ser pessoa.
Há uma canção qualquer, salvo erro, que diz isso.

in Sorumbatico
Pedro Barroso

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