Acordo ortográfico continua na “gaveta”

Posted: 5 Setembro, 2007 in Agentes de Comunicação, Braga, Brasil, Das palavras, Desabafo, Educação, Jornalismo, Letras, Literatura, Livro, Opinião, Portugal

 

Por: Abílio Peixoto (*)

O efeito do Acordo Ortográfico, até agora ratificado por apenas três dos oito países que falam português, só talvez “na próxima década” possa ser avaliado “com mais clareza”, defendeu o professor universitário brasileiro Paulo Motta Oliveira. Em declarações à Agencia Lusa, Motta Oliveira, da Universidade de São Paulo, responsável pela organização do XXI Encontro de Professores Brasileiros de Literatura Portuguesa, que decorre no Brasil desde anteontem até amanhã, considerou estar-se em presença de “um desacordo”, mais do que de um acordo. “Acho cedo para falar do acordo, ainda mais que se trata de um desacordo. Creio que toda a mudança ortográfica é difícil”, disse.

A exemplificar essa dificuldade,apontou os casos de Teixeira de Pascoaes e da revista “A Águia”, por ele analisados nas suas teses de mestrado e doutoramento. Pascoaes,que “já era um escritor afamado quando da reforma republicana”, e “A Águia”, publicada logo após o 5 de Outubro, são, na óptica daquele professor brasileiro, “bons exemplos dessa dificuldade e de como se leva tempo a implementar, na prática, uma mudança em hábitos de escrita arraigados”. “Possuo, por exemplo – referiu – um dicionário do fim da década de 20 que insistia em grafar as palavras como se a reforma republicana não tivesse ocorrido”. E concluiu: “Assim, creio que só poderemos avaliar com mais clareza o efeito deste possível acordo no futuro, talvez na próxima década”. Assinado em Dezembro de 1990, o Acordo Ortográfico deveria ter entrado em vigor a 1 de Janeiro de 1994depois de depositados os instrumentos de ratificação de todos os Estados, o que não chegou a acontecer.

Em Julho de 1998, na Cidade da Praia, Cabo Verde, foi aprovado um primeiro protocolo modificativo que previa a entrada em vigor do acordo depois da apresentação dos instrumentos de ratificação por todos os Estados signatários. Seis anos mais tarde, em Julho de 2004, por um segundo protocolo modificativo, prescindiu-se da aplicação unânime do acordo e fixou-se que bastaria a ratificação por apenas três países signatários para entrar em vigor. Até agora,apenas três países – Brasil, Cabo Verde e SãoTomé e Príncipe – ratificaram o acordo e os seus dois protocolos, estando, por esse facto,formalmente, em condições para fazer entrarem vigor as novas regras ortográficas.

Há dias, o jornal Folha de São Paulo noticiou que o Ministério da Educação brasileiro está a preparar “a próxima licitação dos livros didáticos, que deve ocorrer em Dezembro, pedindo a nova ortografia”. Carlos Alberto Xavier, o assessor especial do Ministério citado no artigo, referia que a directiva ministerial se reportará aos “livros que serão usados em2009”. Em Julho último, o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Celso Amorim, disseque “seria muito importante, do ponto de vista editorial, que Brasil e Portugal estivessem juntos quando arrancar o acordo ortográfico”.Na altura, o chefe da diplomacia brasileira escusou-se a anunciar se o Brasil adoptaria as novas regras ortográficas sem Portugal.Também entrevistado pelo jornal Folha de São Paulo, Lauro Moreira, o representante brasileiro na CPLP – Comunidade dos Países de Língua Portuguesa – defendeu que a mu-dança deve começar “na sala de aula” e assegurou não ter dúvidas de que, “quando a nova ortografia chegar às escolas, toda a sociedade se adequará”. Na sua previsão, as pessoas levarão algum tempo a acostumar-se à nova ortografia, “como ocorreu com a reforma ortográfica de 1971, mas ela entrará em vigor aos poucos”. Tecnicamente, lembra Lauro Moreira, a nova ortografia “já poderia estar em vigor desde o início do ano. Isso porque a CPLP definiu que, quando três países ratificassem o acordo, ele já poderia vigorar”.

O Brasil ratificou o acordo em 2004, Cabo Verde em Fevereiro de 2006, e São Tomé e Príncipe em Dezembro. “O problema é Portugal, que está hesitante. Do jeito que está, o Brasil fica um pouco sozinho nessa história. A ortografia torna-se mais simples, mas não cumpre o objectivo inicial de padronizar a língua”, referiu Lauro Moreira. Portugal já ratificou o acordo,mas tem ainda de ratificar o segundo protocolo modificativo. Segundo fonte do ministério dos Negócios Estrangeiros, Portugal pretende introduzir uma cláusula de reserva diferindo por 10 anos a entrada em vigor do acordo. Um outro interlocutor do Folha de São Paulo, o presidente da Academia Brasileira de Letras,Marcos Vilaça, considera que “não faz sentido”que, actualmente, nos eventos internacionais,seja “preciso redigir dois documentos (…): coma grafia de Portugal e a do Brasil”. Na sua avaliação, Portugal não tem motivos para resistir à ratificação. “Fala-se – indica – de uma pressão das editoras, que não querem mudar os seus arquivos, e de um conservadorismo linguístico. Isso não é desculpa”. Segundo especialistas, as modificações propostas no acordo devem alterar 1,6 por cento do vocabulário de Portugal. Os portugueses deixarão, por exemplo, de escrever “húmido” para usar a nova ortografia (“úmido”) e desaparecem também da actual grafia em Portugal o “c” e o “p” nas palavras em que estas letras não são pronunciadas, como em “acção”, “acto”, “baptismo” e “óptimo”. No Brasil, a mudança será menor, porquanto apenas 0,45por cento das palavras terão a escrita alterada.O trema utilizado pelos brasileiros desaparece completamente e o hífen terá a mesma sorte quando o segundo elemento da palavra comece com “s” ou “r”, casos em que estas consoantes devem ser dobradas, como em “antirreligioso” e “contrarregra”. Apenas quando os prefixos terminam em “r” se mantém o hífen (como, por exemplo, nos vocábulos hiper-realista, super-resistente…).

O acento circunflexo sai também de cena nas paroxítonas (graves) terminadas em “o” duplo (“vôo”e “enjôo”), usado na ortografia do Brasil, mas não na de Portugal, e da terceira pessoa do plural do presente do indicativo dos verbos crer, ler, dar, ver (actualmente: crêem, lêem,dêem, vêem), e os seus derivados.Passará a escrever-se: creem, leem, deem e veem. No Brasil, o acento agudo deixará de usar-se nos ditongos abertos “ei” e “oi” de palavras paroxítonas (graves) como “assembleia” e “ideia”.

O alfabeto deixará de ter 23 letras para ter 26,com a incorporação do “k”, “w” e “y”.

(*) com Lusa

—————-
Now playing: Jair Oliveira – Tiro Onda
via FoxyTunes

Comentários
  1. Carmindo de Carvalho diz:

    Acordo ortográfico

    Mudam-se os tempos
    Mudam-se as vontades
    E ao sabor dos ventos
    Mudam-se os nomes às ruas das vilas aldeias e cidades.
    Já há muito que nasci
    E desde que tenho dentes já muita côdea comi!
    Mas para grande espanto uns senhores mandões
    Agora querem ensinar-me a falar.
    Pasmo e é de pasmar!
    Tamanha barbaridade nem ao diabo iria lembrar.
    Querem que coma os pés, os tés, os tiles e os ões
    Temperados com os convexos sinais
    Os marrecos circunflexos e outros mais!. Aprender,
    Cada dia que passa quero algo mais aprender,
    Aprender até morrer, mas meus senhores isto é
    [ desaprender!.
    Já li nas entrelinhas, já ouvi nas entre ondas do ar,
    Só me falta aprender a nadar nos intervalos das ondas do
    [mar,
    Mas agora para um jornal ler
    Tenho que ir para a escola aprender.
    Recuso esta determinação tão drástica, pragmática, Chamar arimética à aritmética, anistia à amnistia
    É dar um pontapé um murro ou lá o que é na gramática.
    Recuso este barrete enfiar,
    Recuso este banquete que me querem presentear,
    Chamem-me parvo burro retrógrado e tudo
    Que eu não me vou chatear.
    Ah! Camões, Camões!
    Para que andaste por aqui aos trambolhões?!.
    Vem cá abaixo calar o pio e apertar o papo,
    A estes vândalos pseudoculturais
    Mamões, papões, de negócios de cifrões.
    Talvez agora entendas, ó Camões!.

    Carmindo de Carvalho

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