O ACORDO VAI NU?

Posted: 19 Julho, 2008 in Brasil, Canadá, Cultura, Justiça, Liberdade, Literatura, Livro, Opinião, Poemas, Poesia, Política, Porttuguesa, Portugal, Radio, Social

Ramiro S. Osório

Meti toda a minha vida a saber desenhar como uma criança.” (Picasso)

É desse modo que é preciso demonstrar que um acordo ortográfico não pode fazer o que os seus defensores dizem que pode. Talvez alguns saibam que não pode. Talvez o móbil seja outro. E andam uns mitos no ar.

“ALGUNS MITOS MENORES POSTOS À CIRCULAÇÃO” PELOS DEFENSORES DO “ACORDO”:

1º MITO

“A EXISTÊNCIA DE DUPLA GRAFIA LIMITA A DINÂMICA DO IDIOMA E AS DIFERENÇAS CRIAM OBSTÁCULOS (…)”
Fonte: “Acordo Ortográfico do Português: perguntas frequentes”)

Essa afirmação dos defensores não corresponde à realidade.
A DUPLA GRAFIA NÃO CRIA REAIS OBSTÁCULOS DE COMUNICAÇÃO.

NÃO HÁ ACORDO ORTOGRÁFICO QUE POSSA MELHORAR A COMUNICAÇÃO ENTRE OS 8 PAÍSES DA COMUNIDADE DE PAÍSES DE LÍNGUA PORTUGUESA

Porque:

Uma língua é um meio de comunicação.
A língua portuguesa sempre permitiu e continua a permitir – com êxito – a comunicação entre os 8 países da CPLP.
Se a comunicação não é total entre esses países, é por causa dos obstáculos criados pelas diferenças lexicais, e não pelas diferenças ortográficas.

Quando lemos um texto, a sua compreensão não se perde com os erros ortográficos: ótimo, afeto, ação, úmido.
Quando lemos um texto, a sua compreensão perde-se quando lemos: camisola, privada, cara, curtir e afinal essas palavras não significam o que significam em português e precisam (não de acordo ortográfico, mas sim:) de tradução porque nem todos vêem telenovela. No dicionário (inexistente) viria: camisa de noite, casa de banho, indivíduo, gozar.

O Embaixador de um dos países da CPLP contou-me que, há uns anos atrás, num dos países da Comunidade havia uma grande falta de livros. O Brasil enviou milhares de livros. Esses livros nunca foram distribuídos porque a leitura seria dificultada por esses livros não estarem escritos com a mesma ortografia.

Ora, se o “acordo” entrasse em vigor… O FUNDO DO PROBLEMA SUBSISTIRIA.
A ortografia não é a língua. Não interessa escrever com forma igual palavras com significados diferentes (homónimos, na realidade), quando para mais: elas serão articuladas por SINTAXES DIFERENTES, num discurso também não unificado por causa de LÉXICOS DIFERENTES.

QUER DIZER QUE – ao contrário do que dizem os seus defensores – UM ACORDO ORTOGRÁFICO NÃO MELHORARIA A COMUNICAÇÃO ENTRE OS 8 PAÍSES DA CPLP.

2º MITO

“NOS FÓRUNS INTERNACIONAIS, COMO A ONU, OS DOCUMENTOS OFICIAIS NÃO TERÃO QUE SER MAIS TRADUZIDOS PARA AS DUAS VARIANTES DA LÍNGUA LUSA, COMO ACONTECE AGORA.”
(Fonte: http://www.gopetition.com/online/17740.html)

(Antes de mais, uma rectificação técnica:
Raio de pouca sorte, a própria frase citada precisa de tradução: “não terão que ser mais traduzidos” não é português. E “língua lusa” (também) não é terminologia portuguesa.)

AO CONTRÁRIO DO QUE AFIRMAM OS DEFENSORES DO “ACORDO”, AFIRMO QUE – SE ELE FOSSE ADOPTADO – NA ONU, etc. CONTINUARIAM A SER NECESSÁRIAS DUAS VERSÕES DE TRADUÇÃO NOS DOCUMENTOS ESCRITOS (sintaxe oblige) E DUAS VERSÕES DE TRADUÇÃO ORAL (pronunciação oblige).

Falando de ONU, vem a propósito corrigir mais dois erros que muito frequentemente os defensores do “acordo” fazem (e não são os únicos).

O PORTUGUÊS NÃO É A ÚNICA LÍNGUA SEM GRAFIA OFICIAL.
NÃO É NECESSÁRIO UMA LÍNGUA TER UMA GRAFIA OFICIAL PARA PODER SER ADOPTADA COMO LÍNGUA DE TRABALHO NA ONU.

PROVA DISSO:
O padrão da ONU para os documentos escritos em língua inglesa (United Nations Editorial Manual) segue o ” British usage ” e o ” Oxford spelling “. (1)
(Fonte: http://en.wikipedia.org/wiki/United_Nations

De onde se pode concluir que a língua inglesa é uma língua oficial da ONU apesar de não ter uma grafia unificada.

CONCLUSÃO:

A língua portuguesa sempre permitiu e continua a permitir – com êxito – a comunicação entre os 8 países da CPLP.
Vimos que:
1) NOS PAÍSES LUSÓFONOS, UM ACORDO ORTOGRÁFICO NÃO MELHORARIA A COMUNICAÇÃO
2) NA ONU, ETC., CONTINUARIAM A SER NECESSÁRIAS DUAS VERSÕES DE TRADUÇÃO NOS DOCUMENTOS ESCRITOS (sintaxe oblige) E DUAS VERSÕES DE TRADUÇÃO ORAL (pronunciação oblige).

ENTÃO UM ACORDO PARA QUÊ?
(É que o acordo talvez não vá nu, mas mascarado. E não me referirei neste artigo à negociata livresca, que é fresca. E mais outras que haverá).

DIZEM OS DEFENSORES QUE ASSIM O IDIOMA PORTUGUÊS ENTRARIA NA ONU.

Acontece que a petição para o “idioma” português entrar na ONU está redigida no “idioma” brasileiro (digo idioma porque idioma é a língua própria de uma nação. Assim se pode dizer que na CPLP estão presentes oito idiomas de uma língua comum).

Como Coimbra não é Oxford, nem Portugal soube prestigiar a sua língua como o Reino Unido o fez, penso que não é um processo de intenção prever que, no futuro, a “mais-valia” dos milhões que o Brasil representa faça que a língua internacional – com ou sem “acordo” – seja o brasileiro e não o português. MAIS UMA RAZÃO PARA SER CONTRA O ACORDO.

Se no futuro, tivermos de falar brasileiro para sermos entendidos “lá fora”, mais uma razão para lutar para podermos continuar a falar e a escrever português “cá dentro” (by the way, eu sou o autor deste conceito que irmanou Portugal ao “lá fora”).

Se o pretendente ao Conselho de Segurança da ONU é o Brasil, por que é que o Brasil não leva para a ONU o “português do Brasil” (como lá se diz) e nós (e outros países da Comunidade, se assim o entenderem) continuamos com o português? É para nos pouparem que não nos transformemos numa língua morta? Alguém pode pensar que é por decreto que uma língua não envelhece e não morre? Quem acredita que foi por não compactuar com um “acordo” que o grego clássico e o latim morreram?

Claro que não posso terminar sem aqui deixar claro o seguinte:
O problema “ACORDO” transformou-se em matéria melindrosa. Em vez da unificação proclamada pelos seus defensores, vejo criarem-se abismos entre amigos brasileiros e portugueses, tal como entre amigos portugueses. É-me doloroso porque sou brasileirófilo e português.

(1) Deixo esta nota de roda pé porque considero interessante ver como países saxónicos podem ser mais ciosos da etimologia grega e latina do que alguns países latinos.

Oxford spelling (or Oxford English spelling) is the spelling used in the editorial practice of the Oxford English Dictionary (OED) and other English language dictionaries based on the OED, for example the Concise Oxford English Dictionary, and in academic journals and text books published by Oxford University Press. In digital documents, the use of Oxford spelling can be indicated with the language tag en-GB-oed.
Oxford spelling follows British spelling in combination with the suffix -ize instead of -ise. For instance, organization, privatize and recognizable are used instead of organisation, privatise and recognisable. In the last few decades, the suffix -ise has become the usual spelling in the UK. Therefore, many people incorrectly regard -ize as an Americanism, although the form -ize has been in use in English since the 16th century. [1] The use of -ize instead of -ise does not affect the spelling of words ending in -yse, which are spelt analyse, paralyse and catalyse in line with standard British usage.
In the Oxford English Dictionary, the choice to use -ize instead of -ise is defended as follows: “[…] some have used the spelling -ise in English, as in French […] But the suffix itself, whatever the element to which it is added, is in its origin the Greek -izein, Latin -izare; and, as the pronunciation is also with z, there is no reason why in English the special French spelling should be followed, in opposition to that which is at once etymological and phonetic. In this Dictionary the termination is uniformly written -ize.”
(Fonte: http://en.wikipedia.org/wiki/Oxford_spelling)

Ramiro S. Osório | Utente da língua e escritor

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Acordo Ortográfico:

para quem e para quê?

(republicando…)

Venho ouvindo comentários os mais diversos sobre o acordo ortográfico entre os países lusófonos. E, diga-se de passagem, todos contrários à sua implementação (existe alguém a favor?). Eu, de fato, tenho que confessar que não tenho a mínima idéia da verdadeira razão para se implantar tais alterações no vocabulário ortográfico.

Digo “verdadeira razão” porque há mais coisas não ditas do que ditas. Uma das coisas que está no âmbito do dito é a “tentativa de unificação” dos vocábulos para facilitar a comunicação entre os países lusófonos. Bem, qualquer pessoa minimamente letrada que lê o acordo percebe que isso não existe nem mesmo lá. Se serão permitidas duas grafias para “fato” (como em “de fato” no Brasil), podendo-se grafar “fato” e “facto”, não é preciso ser clarividente para saber que o Brasil continuará a escrever “fato” e Portugal, “facto”, até mesmo porque em Portugal a palavra “fato” significa outra coisa (“terno”, no Brasil). Isso, para comparar somente dois países (imaginamos então que essas diferenças só se ampliam na relação entre todos os países).

Outro item do dito é a utopia da “universalização” das editoras. Tem origem mercadológica. Conta a lenda que as editoras pretendem unificar a ortografia com vistas a reduzir custos de impressão nos países lusófonos… O que seria isso? As editoras de um país demandariam arquivos diagramados via internet para as editoras dos outros países? Sim, porque se uma editora pretende imprimir seus livros e enviá-los para os demais, o custo com transporte, material, importação/exportação praticamente equivaleriam a republicá-los no país com as devidas adaptações na ortografia. Se a opção é a de que os países mais pobres teriam mais acesso a mais livros, isso é balela, pois povos mais pobres não lêem. Por outro lado, se lêem, eu li Saramago em versão portuguesa e algumas consultas ao dicionário não me impediram de entender toda a estória.

Com base na efemeridade de todos os exemplos no nível do “dito”, eu tendo a pensar que as razões para se firmar um acordo ortográfico está inteiramente pautado no “não-dito”. Celeuma política, a política do não-fazer-o-que-se-deve. Enquanto a educação no país carece de atenção e investimento, criam-se factóides como acordos ortográficos e veto ao uso de estrangeirismos, que não têm qualquer relevância no cômpito geral da educação (como vimos, sequer mercadológica).

Uma mudança na ortografia provoca um efeito em cascata. As mudanças têm de vir obrigatoriamente com um plano de reeducação, envolvendo tanto a escola quanto a mídia na divulgação das mudanças, e isso certamente não acontecerá no Brasil. Um universo imenso tem que assimilar todas as mudanças de imediato: documentos oficiais e comerciais; corretores ortográficos de editores de textos eletrônico; livros didáticos (e, principalmente, os professores em sala de aula), livros de toda sorte expostos nas livrarias, para citar somente alguns. Uma mudança ortográfica, por menor que seja, leva pelo menos três gerações para ser totalmente assimilada pela população. Enquanto isso acontece gradativamente, a “auto-estima lingüística” das classes mais carentes da população vai sendo jogada para baixo, pois é essa classe que tem menos acesso ao conhecimento e é mais discriminada nos processos de coerção social (sim, a língua é um dos instrumentos mais utilizados para discriminação).

Portugal é o “dono da língua” e está reticente no assunto. Não pretende acatar um acordo com o qual não concorda. Por que, então, os “colonizados” insistem tanto no assunto? Não tenho a resposta. Os países (os povos, em geral) são culturalmente diferentes, mesmo que alguns digam que nem tanto, e já sofrem com as suas variações lingüísticas que não são incorporadas por serem as variantes das ex-colonias. Cada nação deveria cuidar dos seus próprios movimentos lingüísticos, pouco importando os fatores externos. Se a intenção é a unificação da língua portuguesa (que nem o inglês conseguiu) para que tenhamos mais poder político e econômico, então essa proposta deveria ser articulada pelo “dono da língua”.

Apesar dos motivos obscuros que levam a esse acordo, sou a favor de uma mudança ortográfica para que a língua se renove, mas não essa aí que nos está sendo posta goela abaixo. Embora alguma coisa do acordo possa ser aproveitada, sou a favor de uma mudança real, como uma simplificação da utilização de hifem em palavras compostas (é preciso diminuir as muitas regras desnecessárias), que, nem de longe, foi mencionada até no acordo. Não consigo aceitar, por exemplo, a queda do trema, cuja importância na pronúncia do “u” nos casos em que ele é necessário é essencial para garantir que as palavras não passem a ser pronunciadas de outra forma. A queda do acento agudo nos ditongos abertos em “ei” e “oi”, proposta no acordo, também é inaceitável, uma vez que esse o acento distingue a pronúncia aberta da fechada (baleia x idéia).

Historicamente, as línguas mudam; nada, nem ninguém, conseguirá evitar isso. Mas algumas medidas podem adiar as mudanças, para mais conforto de seus usuários.

in http://simplificandoalingua.blogs.sapo.pt/

Comentários
  1. Carmindo Pinto de Carvalho diz:

    Acordo ortográfico

    Mudam-se os tempos
    Mudam-se as vontades
    E ao sabor dos ventos
    Mudam-se os nomes às ruas das vilas aldeias e cidades.
    Já há muito que nasci
    E desde que tenho dentes já muita côdea comi!
    Mas para grande espanto uns senhores mandões
    Agora querem ensinar-me a falar.
    Pasmo e é de pasmar!
    Tamanha barbaridade nem ao diabo iria lembrar.
    Querem que coma os pês, os tês, os tiles e os ões
    Temperados com os convexos sinais
    Os marrecos circunflexos e outros mais!. Aprender,
    Cada dia que passa quero algo mais aprender,
    Aprender até morrer, mas meus senhores isto é desaprender!.
    Já li nas entrelinhas, já ouvi nas entre ondas do ar,
    Só me falta aprender a nadar nos intervalos das ondas do mar,
    Mas agora para um jornal ler
    Tenho que ir para a escola aprender.
    Recuso esta determinação tão drástica, pragmática,
    Chamar arimética à aritmética, anistia à amnistia
    É dar um pontapé um murro ou lá o que é na gramática.
    Recuso este barrete enfiar,
    Recuso este banquete que me querem presentear,
    Chamem-me parvo burro retrógrado e tudo
    Que eu não me vou chatear.
    Ah! Camões, Camões!
    Para que andaste por aqui aos trambolhões?!.
    Vem cá abaixo calar o pio e apertar o papo,
    A estes vândalos pseudoculturais
    Mamões, papões, de negócios de cifrões.
    Talvez agora entendas, ó Camões!.

    Carmindo de Carvalho

  2. Obrigado amigo Carmindo pelo pertinente poema.

    Já agora, e visto que o Sr. Cavaco Silva promulgou ontem a Lei, quero informar de que, eu NUNCA irei aderir ao “Acordo ortográfico”…

    Caros governantes e Sr. Cavaco Silva, vou continuar, orgulhosamente a escrever Humidade, Húmido, faCto, aCto, aCção! Chamem-me o que quiserem, mas já vi acontecerem referendos por muito menos…

  3. Ó amigo Araujo . Não vais adereir ? Ainda bem, porque assim já somos dois.
    Contra esta porcaria já eu me manifestei no poema . Foi escrito logo assim que se começou a ouvir falar , salvo o erro , no ano de 1994 .
    Mas por fim levaram a coisa avante . É mais uma coisa que eu vou facturar ao SÓCRATES e seus compadres . É mais uma , a juntar àquela coisa vergonhosa da política se ter intrometido no caso da MEDDIE . O primeiro ministro Inglês foi a Portugal e o nosso baixou as ditas . E foi o que se viu e muito mais que se pode imaginar . Trocaram responsáveis por fantoches a fim de atrasar e entupir. O livro vou já comprá-lo.
    Quanto ao ( DESACORDO ) Para que serve ? Porque não obrigar o BRASIL a aprender Português ? Já existia adulteração , agora é a machadada final . Porquê ? Para manter um número maior de falantes ? Ora , ora , deixem-nos ser poucos mas bons e com dignidade .
    ” Pior a emenda que o soneto ” Tenho dito .

  4. OLha que engraçado ! Vi o Sítio , e pensei à antiga !!! Que se lixe já está que fique , pois que fica muito bem

  5. Ramiro Osório diz:

    Como autor do texto “O ACORDO VAI NU?”, considero que deveria ser referido onde é que o foram buscar: ao blogue oficial do movimento contra o acordo autográfico, onde está on line uma petição que já conta com mais de 93.000 assinaturas.

  6. Caro Ramiro Osório, o seu excelente texto está lincado (experimente clicar sobre o seu nome) e na barra lateral, existe também um banner da referida petição.

    Obrigado pela visita.

    Abraço

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