“Os portugueses espalhados pelo mundo, são o primeiro rosto de Portugal ” – Manuel Alegre

Posted: 17 Janeiro, 2011 in Portugal

Entrevista ao Revista Lusitano

“a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa pode ter um papel crescente. E sem esquecer também os portugueses espalhados pelo mundo, que são o primeiro rosto de Portugal nos contributos quotidianos que dão às sociedades onde se inserem”.

O que o leva a candidatar-se a Presidente da República?

Na situação de crise que vivemos na Europa e em Portugal, estou profundamente convencido de que um Presidente da República pode fazer a diferença e ser um factor de mudança. Pode até ser uma alternativa, não de governo, porque o Presidente não governa, mas de atitude, de pensamento, de palavra. Candidato-me por isso por uma outra visão do nosso país e do seu papel no mundo e na Europa. Candidato-me também pela defesa do conteúdo social da nossa democracia, que está a ser posto em causa por uma ofensiva da direita conservadora e dos mercados financeiros. E candidato-me ainda – e esta é uma questão decisiva para o nosso futuro colectivo – para que a juventude, que está com o seu futuro bloqueado, tenha um lugar ao sol no nosso país.

O que o distingue dos outros candidatos?

O que está em causa nesta eleição é saber que democracia queremos ter em Portugal e se estamos dispostos a lutar pelos direitos sociais inscritos na Constituição. A eleição vai ser mais bipolarizada que em 2006. O confronto é entre duas candidaturas: a do actual Presidente, que se recandidata com o apoio do capital financeiro e dos dois partidos, PSD e CDS, que em Portugal têm atacado o Estado social; e a minha, que tem o apoio do PS, do BE e de vários movimentos cívicos e políticos, e que defende uma visão mais justa e solidária do nosso país e do mundo. Quanto ao PCP, sempre apresentou um candidato – e é útil que o volte a fazer, porque há parte do eleitorado que só um candidato comunista mobiliza. Mas nunca a esquerda perdeu a eleição presidencial em Portugal por causa do PCP. Os votos à esquerda somam-se na primeira volta. Se Cavaco Silva não conseguir os 50%, como espero, haverá uma segunda volta e estou em condições de disputar a vitória.

Na sua opinião, quais os pontos menos favoráveis no mandato do actual presidente da república?

Critiquei, desde a campanha de 2006, o conceito de “cooperação estratégica” de Cavaco Silva, por trazer consigo um ideia de partilha da responsabilidade do executivo que não compete ao Presidente em Portugal. O nosso Presidente não é um Primeiro Ministro nº 2, nem um super Ministro das Finanças. O seu papel é o de moderar, inspirar e mobilizar. E isso Cavaco Silva não tem feito. Tem sido sobretudo um gestor de silêncios. Perante o agravar da crise, não procurou promover uma concertação, política e social, com todos os parceiros. Convocou o Conselho de Estado tardiamente. E não tem sensibilizado, como em minha opinião deveria, chefes de Estado, governos e instituições estrangeiras, contra os ataques especulativos à nossa dívida soberana. Há neste momento uma deslocação do centro de poder na Europa, em favor do eixo Paris-Berlim e em desfavor dos países periféricos como o nosso. Não podemos resignar-nos e dizer que os mercados “não nos ligam nenhuma” como afirmou Cavaco Silva. Só há Europa se houver igualdade das Nações. O dever de um Presidente é não abdicar de defender Portugal aqui e lá fora, sobretudo neste momento de crise.

Como vê a proposta do PSD no que se refere à revisão da constituição relativa aos poderes do Presidente da República?

O mais grave na proposta de revisão constitucional do PSD não é essa matéria – em relação à qual julgo que os poderes do Presidente, tal como estão na Constituição, estão equilibrados. O mais grave é a destruição de direitos sociais que custaram muitas gerações a conquistar – o Serviço Nacional de Saúde público, a segurança social pública, a escola pública de qualidade, o conceito de justa causa nos despedimentos. É que não se trata apenas de um projecto de revisão constitucional, mas de um programa político e de governo que o líder do PSD vem defendendo, em sintonia com os sectores conservadores e ultra-liberais da Europa. Cavaco Silva tem-se mantido calado sobre este tema, o que é grave. Eu tenho assumido com frontalidade o que farei como Presidente: vetarei qualquer diploma, de qualquer governo, que ponha em causa esses direitos sociais tal como estão na nossa Constituição. Somos um país em que 18% da população está em risco de pobreza. Seriam mais de 40% se não fossem as transferências sociais. É também por isso e em nome de todos esses portugueses, em nome da solidariedade e da justiça social, em nome dos valores do 25 de Abril, que temos de fazer frente ao projecto de destruição do Estado social que está em marcha e face ao qual ainda não ouvimos uma única palavra de Cavaco Silva.

Qual o seu projecto para o país?

Não há dúvida de que o excesso de endividamento afecta a soberania e a autonomia de decisão de um país. O equilíbrio das contas públicas é aliás uma condição de preservação do próprio Estado Social. Mas o principal défice português continua a ser um défice social, um défice de emprego, um défice de justiça e um défice de solidariedade. Continuamos a ser um país com muita injustiça e muitas desigualdades. Portugal precisa de um plano de crescimento económico, de melhor aproveitamento do mar, da terra, dos seus recursos endógenos; precisa de políticas de emprego e de investimento público, de criatividade, inovação tecnológica e inovação social. Precisa de aumentar e diversificar as suas exportações, sobretudo em produtos com valor acrescentado. E precisa de recuperar, preservar e valorizar os seus diferentes patrimónios, a História, a cultura, a língua, os sítios, as paisagens, a fauna, a flora, a biodiversidade, tudo aquilo que afirma a diferença e a singularidade de um país que é muito maior do que o seu pequeno território, mas que, pela língua e pela História, pode e deve ser no Mundo um actor global. Sem esquecer a dimensão euro atlântica, como um novo espaço político e cultural, em que a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa pode ter um papel crescente. E sem esquecer também os portugueses espalhados pelo mundo, que são o primeiro rosto de Portugal nos contributos quotidianos que dão às sociedades onde se inserem.

Qual o apelo que deixa aos emigrantes portugueses espalhados pelo mundo?

As nossas Comunidades espalhadas pelo mundo constituem um potencial riquíssimo para Portugal, um elo de ligação que precisa de ser mais valorizado e reconhecido pela nossa sociedade e pelos poderes públicos. Assumo, por isso, o compromisso de representar os Portugueses que se encontram a viver e a trabalhar no estrangeiro, defender os seus interesses e valorizar e reconhecer as suas múltiplas dimensões – social, económica, cultural e política. Em democracia somos todos somos chamados a construir, permanentemente, esta grande nação que é Portugal. Confio por isso no vosso patriotismo e apelo à vossa participação nas próxima eleição presidencial, como forma de reforçar os laços que vos unem a Portugal e de contribuir de forma decisiva para eleger um Presidente com um visão do mundo progressista, justa e solidária, com uma dimensão humanista e cultural e que, por experiência própria, compreende bem o que é viver fora do país.

Manuel Araújo/Lusitano de Zurique

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